A morte nos faz cair em seu alçapão, / É uma mão que nos agarra / E nunca mais nos solta. / A morte para todos faz capa escura, / E faz da terra uma toalha; / Sem distinção ela nos serve, / Põe os segredos a descoberto, / A morte liberta o escravo, / A morte submete rei e papa / E paga a cada um seu salário, / E devolve ao pobre o que ele perde / E toma do rico o que ele abocanha.
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII. São Paulo : Ateliê Editorial / Editora Imaginário, 1996. 50, vv. 361-372)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Cemitério Israelita de Inhaúma - no Rio

Lápides têm números, ao invés de nomes, e muro demarca a exclusão das "polacas", as prostitutas judias

Túmulos no Cemitério Israelita de Inhaúma, no Rio de Janeiro. Fotos do acervo pessoal de Beatriz Kushnir. Imagem disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1200



Por Beatriz Kushnir. Artigo publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional, Seção “Patrimônio em Perigo”, 26/10/2007. Edição nº 25, Outubro de 2007.



O Decreto N.º 28.463, de 21/9/2007, publicado no Diário Oficial do Município do RJ de 24/9/2007, é a garantia legal que o Cemitério Israelita de Inhaúma será preservado de forma intacta. Não se farão alterações arquitetônicas, nem promoverão novos enterros sem a autorização expressa do Patrimônio Cultural da Prefeitura do Rio.

O Cemitério Israelita de Inhaúma será resguardado enquanto o espaço de sepultamento dos sócios e sócias da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (ABFRI) – as famosas “polacas”.

O cemitério está trancado e é preciso fazer um balé de negociações para garantir a entrada. Ninguém mais além de mim e de meus amigos foram até lá no domingo, dia 16/9, entre o Rosh Hashaná e o Yom Kipur, data em que se reverenciam os mortos.

Lápides tem números ao invés de nomes (...) Túmulos no Cemitério Israelita de Inhaúma, no Rio de Janeiro. Fotos do acervo pessoal de Beatriz Kushnir. Imagem disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1200

Assustei-me com o estado de abandono do lugar, das lápides pintadas com cal e numeradas com colorjet preta, mesmo que existam informações em sua base. Cresce o número de sepulturas sem identificação, mesmo que eu venha constantemente dizendo onde está o documento que recoloca as identidades nos túmulos…

O tombamento do cemitério não é inesperado. Aquele campo-santo está ausente de uma ação efetiva. Na década de 1980, o Dr. Siqueira, então presidente da Sociedade Comunal Israelita, assumiu junto ao Departamento de Cemitérios da Prefeitura do Rio que o Comunal zelaria por Inhaúma, já que os sócios e sócias da ABFRI estavam idosos e quase todos falecidos. Nos últimos anos, contudo, o estado de abandono me fez várias vezes solicitar ao Departamento de Cemitérios a limpeza do local.

Em fevereiro de 2007 fui impedida de entrar em Inhaúma. Constatei que o Cemitério estava trancado, algo que nunca ocorreu antes. Para tentar entender o que se passava, soube que a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) apoiava uma iniciativa do Comunal de construir um muro separando as lápides existentes de um pequeno terreno ainda ocioso no cemitério e que margeia a favela do Rato Molhado. Esse muro é para impor as normas judaicas de que prostitutas e suicidas são enterrados junto aos muros, demarcando sua exclusão.

Túmulos no Cemitério Israelita de Inhaúma, no Rio de Janeiro. Fotos do acervo pessoal de Beatriz Kushnir. Imagem disponível em: http://www.beijodarua.com.br/materia.asp?edicao=28&coluna=6&reportagem=779&num=1

Após essa “sacralização” e separação, outros enterramentos seriam realizados ali. Por tudo que pesquisei sobre elas, não posso permitir que isso ocorra. Párias não! Torço que a Fierj e o Comunal anunciem, como o fez a Sociedade Cemitério Chevra Kadisha de São Paulo há quase dez anos em Cubatão e no Butantã, a abertura, restauro e manutenção de Inhaúma.

Coloco-me, como sempre o fiz, à disposição para ajudar a realizar tal tarefa.
Para apoiar essa causa, assine e divulgue a Petição Online contra a o abandono do Cemitério Israelita de Inhaúma:
www.petitiononline.com/branca/petition.html



Beatriz Kushnir é Doutora em História Social do Trabalho pela UNICAMP. Atualmente dirige o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro [Prefeitura do Rio/Secretaria Municipal das Culturas]. É autora, entre outras obras, de Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição. As polacas e suas associações de ajuda mútua (Rio de Janeiro,Imago, 1996).



Saiba mais:

Zonas de Solidariedade

[http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=395]
Judias imigrantes da Europa Oriental, as polacas tornaram-se prostitutas no Brasil. Marginalizadas, buscaram no auxílio mútuo uma forma de viver com dignidade.


Blog sobre as "polacas"

[ http://polacas.blogspot.com/ ]


Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1200

Veja também:

http://www.beijodarua.com.br/materia.asp?edicao=28&coluna=6&reportagem=779&num=1

2 comentários:

  1. Muy curioso,es lastimoso que estos espacios no se dignifiquen.

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  2. Acho uma sacanagem nao por o nome das gurias nos tumulos. Quantas "Bergs", "Witz oi Vitz", "Vich", "Steins" etc. nao havera la? Com sorte tera ate um nome Sefaradi de uma parenta distante! Vivre les Putains! Judias ou otherwise. Sam

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