A morte nos faz cair em seu alçapão, / É uma mão que nos agarra / E nunca mais nos solta. / A morte para todos faz capa escura, / E faz da terra uma toalha; / Sem distinção ela nos serve, / Põe os segredos a descoberto, / A morte liberta o escravo, / A morte submete rei e papa / E paga a cada um seu salário, / E devolve ao pobre o que ele perde / E toma do rico o que ele abocanha.
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII. São Paulo : Ateliê Editorial / Editora Imaginário, 1996. 50, vv. 361-372)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pará: Soledade vai ser transformado em cemitério-parque

Pesquisas no Cemitério Nossa Senhora do Soledade revelam aspectos sociais de Belém do século XIX


Texto: Dandara Assunção, Agência Museu Goeldi.
Fotos: Carmem Trindade, Dandara Assunção e Fernando Marques.
Notícia publicada no "Museu em Pauta" - Informativo eletrônico, n º 40 - Belém, 28 de agosto de 2008.




Construído no Século XIX, o Cemitério Nossa Senhora da Soledade, localizado à Avenida Serzedelo Corrêa, no centro de Belém, constitui um patrimônio para o povo paraense não só pela sua história, mas também pelo acervo arquitetônico que abriga. A exemplo do que acontece em outras grandes cidades no mundo, o sítio histórico será transformado em cemitério-parque. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) financia a iniciativa de “Conservação, Consolidação e Restauração e Adaptação do Soledade em Cemitério-Parque”. O projeto de levantamento histórico e arquitetônico é executado pela empresa R2 Arquitetura LTDA, e conta com o apoio do Museu Paraense Emílio Goeldi, na realização de investigação arqueológica, coordenada pelo arqueólogo Fernando Marques, do (MPEG).

O cemitério foi tombado como patrimônio paisagístico nacional pelo Iphan em 1964. Construído por volta de 1850 quando epidemias de febre amarela, cólera e varíola dizimaram cerca de 30 mil pessoas, o cemitério foi desativado em 1880, pelo então presidente da Província do Pará, José Coelho da Gama e Abreu, que suspendeu os enterramentos no Soledade. Estudos apontavam que o solo misto de argila e areia, era impróprio para enterros. “O solo tende a ficar mais enfraquecido com a decomposição dos corpos”, explica Fernando Marques sobre as condições do solo do Soledade.

Antes da epidemia, os mortos eram enterrados nas igrejas da cidade, com exceção dos escravos que já eram sepultados em cemitérios. “A epidemia matou inúmeras pessoas, por isso a necessidade de serem enterradas em cemitérios e não mais em igreja. Era preciso que a cidade passasse por um processo de higienização urbana”, explica a historiadora da UFPA, Cássia Rosa, que também integra o projeto de revitalização do cemitério.





Arte para homenagear os mortos - Para edificar o cemitério, muitas famílias ricas importavam os mausoléus do exterior, principalmente da Europa, como uma forma de homenagear os familiares mortos pela epidemia. Por essas razões, a arquitetura das sepulturas do Soledade revela fortes influências de diversas escolas artísticas, como o clássico, que seguia linhas da arquitetura grega, e Art Nouveau, que teve grande destaque nas últimas décadas do século XIX, quando o Soledade foi edificado, e primeiras décadas do século XX. O Art Nouveau enquanto escola artística valoriza o trabalho artesanal e possui fortes traços da natureza em sua arquitetura. Por isso, o arqueólogo, Fernando Marques, diz que o Cemitério Nossa Senhora da Soledade é: “Um museu a céu aberto”.

Nos dias atuais, o antigo cemitério ainda é cenário de tradicionais manifestações religiosas, como novenas, orações às almas e agradecimentos de graças alcançadas, ou mesmo atividades apenas contemplativas, face à predominância marcante de verdadeiras obras de arte presentes no Pórtico e nos Mausoléus. As catacumbas mais visitadas, e que se diz ser de almas que realizam milagres, é do menino Zezinho, falecido em 1881; da escrava Anastácia e da Preta Domingas, falecida em 1871. No entorno dessas sepulturas, velas, bombons, e flores são oferendas dos vivos à espera de milagres.





Além da religiosidade manifesta e típica do lugar, o cemitério revela uma visível segregação social que havia no século XIX. O tamanho dos mausoléus dos que tinham posses em relação às sepulturas dos escravos - que eram enterrados nos fundos do Soledade -, por exemplo, deixam claras as diferenças sociais da época. A presença das quatro irmandades: Santo Cristo (Da Santa Casa de Misericórdia), Ordem Terceira do Carmo e São Francisco da Penitência, revela também importantes fontes históricas da Cidade de Belém. As irmandades eram confrarias que recebiam doações em troca de sepulturas para que os doadores pudessem ser enterrados, no Cemitério da Soledade. Naquele tempo quem administrava os enterramentos nos cemitérios da cidade era a Santa Casa de Misericórida.

Outro aspecto interessante do cemitério é a sua extensão, que, então, ia desde a sua atual localização até onde hoje fica o colégio Instituto de Educação do Pará (IEP) e o prédio Manuel Pinto da Silva, ambos localizados à Avenida Serzedelo Corrêa, esquina com a Avenida Nazaré. “Não é raro para os moradores dessa região de Belém encontrar ossadas no quintal de suas casas”, afirma o arqueólogo do Goeldi. As escavações coordenadas por Marques serão realizadas até o mês de setembro, quando outras adaptações históricas e arquitetônicas serão realizadas no Soledade.

Sobre as importantes revelações históricas que as escavações no Cemitério Nossa Senhora da Soledade podem revelar, o arqueólogo responde: “Além de dados culturais, como objetos de uso pessoal, vestuário, formas de sepultamentos e informação, por exemplo, sobre saúde pública, a arqueologia pode resgatar simbolismos das práticas religiosas, oferendas, que muitas vezes não está publicada. O estudo arqueológico permite assim, confrontar estas fontes materiais com a documentação escrita”. As escavações realizadas por Marques e pela equipe que integra o projeto já encontraram várias peças de cerâmica, louças, metais e vidros, além de vestígios de pisos e construções de alvenaria de pedra e tijolos, feita com argamassada de cal obtida a partir de queima e trituração de conchas provenientes, possivelmente de sambaquis da região do salgado e das ilhas.





Arqueologia histórica em espaços urbanos – Esse será um dos temas tratados durante o I Encontro Internacional de Arqueologia da Amazônia, que acontece em Belém entre os dias 2 e 5 de setembro, no Teatro Maria Sylvia Nunes da Estação das Docas. A arqueologia histórica ocupa lugar de destaque no evento e a mesa sobre o tema tem coordenação do arqueólogo Fernando Marques, do Museu Goeldi, que também apresentará trabalho “Agroindústria canavieira e memória urbana: abordagens arqueológicas na Amazônia Colonial“.

Dentre os especialistas convidados estão Arno Kern,Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e Marcos Albuquerque, da Universidade Federal de Pernambuco. Eles vão abordar a importância da arqueologia no contexto das cidades. Kern falará, especialmente, sobre o assunto no Período Colonial, e Albuquerque vai explorar a noção do potencial da arqueologia histórica para resgatar informações engolidas pelo passado, pela selva, em cidades varridas por ataques militares e doenças tropicais.

Já Paulo Zanettini, da Zanettini Arqueologia, apresentará trabalho relativo à arqueologia na cidade amazônica com dois estudos de caso – Projeto Arqueourbs, desenvolvido para o Governo do Estado do Amazonas e o Projeto Fronteira Ocidental, do Mato Grosso – a partir dos quais fará reflexões a respeito do papel do arqueólogo enquanto agente ativo na preservação do patrimônio ambiental urbano. “De aldeias a Missões religiosas: trocas culturais na foz do rio Amazonas“ é o título do trabalho que Paulo Roberto do Canto Lopes, do Museu Histórico do Estado do Pará apresentará durante a sessão.

O Encontro Internacional é uma parceria do Museu Goeldi com o Iphan e a Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult), e conta com o patrocínio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ( Capes); e o apoio da Petrobras.

Serviço: I Encontro Internacional de Arqueologia Amazônica. Realização do Museu Paraense Emilio Goeldi, de 2 a 5 de setembro de 2008, na Estação das Docas, em Belém. Mais informações no portal do Museu Goeldi.


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