A morte nos faz cair em seu alçapão, / É uma mão que nos agarra / E nunca mais nos solta. / A morte para todos faz capa escura, / E faz da terra uma toalha; / Sem distinção ela nos serve, / Põe os segredos a descoberto, / A morte liberta o escravo, / A morte submete rei e papa / E paga a cada um seu salário, / E devolve ao pobre o que ele perde / E toma do rico o que ele abocanha.
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII. São Paulo : Ateliê Editorial / Editora Imaginário, 1996. 50, vv. 361-372)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Eugênio Prati - Entre fotos e túmulos

Selo do escultor Eugênio Prati, no Cemitério da Consolação. Foto: Douglas Nascimento, 2011/São Paulo Antiga. Imagem disponível em 04/04/2011 no site: http://www.saopauloantiga.com.br/eugenio-prati-entre-fotos-e-tumulos/


Por Glaucia Garcia. Postado em 16/03/2011 11:57 no site: São Paulo Antiga [ http://www.saopauloantiga.com.br ] .


Na década de 1920, São Paulo estava passando por diversas transformações urbanísticas e culturais. A nossa cidade estava crescendo e começando a ter status de uma grande metrópole.

Reflexo deste crescimento é que os cemitérios da Consolação e do Araçá estavam superlotados. Sendo assim, foi necessária a criação de uma outra necrópole, o Cemitério São Paulo, no ano de 1926. Paulistanos e principalmente imigrantes bem sucedidos começaram a comprar terrenos nesta necrópole. Escultores eram contratados pelas famílias para fazer verdadeiras obras de arte dentro do Cemitério São Paulo, entre eles, Nicola Rollo, Victor Brecheret, Galileo Emendabili, Vicente Larocca e Armando Zago.

Dentre tantos talentos um aflorava com cada vez mais destaque. Seu nome era Eugênio Prati (1889 – 1979) escultor com enorme talento e grande visão administrativa. Em 1940, Prati lançou um catálogo de obras esculturais de arte funerária para obter mais clientes e conseguiu grande êxito. Podemos encontrar obras de Eugênio Prati na maioria das necrópoles paulistas, também podemos encontrá-las no Cemitério São Francisco de Paula em Curitiba e Cemitério Municipal de Jaú, interior de São Paulo.

O que era para ser um simples catálogo virou hoje item de colecionador com valor histórico imenso. As fotos da galeria abaixo foram registradas no Cemitério São Paulo. Os túmulos continuam os mesmos, mas reparem em algumas fotografias de como a vista do bairro de Pinheiros era diferente. E isso é apenas uma pequena parte que este antigo catálogo nos reserva.

Comparativo fotográfico 1940-2011 (veja no site: São Paulo antiga outras fotos do "Comparativo fotográfico")





A autora: Glaucia Garcia de Carvalho Licenciada em História pela Universidade Guarulhos, é pesquisadora e professora da rede pública e particular em Guarulhos. Desenvolve trabalhos e projetos sobre patrimônio cemiterial visando à preservação e a identidade cultural. É co-fundadora da Associação Guarulhos tem História e da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC). É co-autora dos livros Guarulhos tem História e Guarulhos: espaço de muitos povos .


domingo, 27 de março de 2011

Arqueólogos encontram tumba de príncipe celta na Alemanha

Arqueólogos retiraram o túmulo, que pertenceria a um príncipe celta, do local para estudá-lo. Foto: EFE. Imagem disponível em 27/03/2011 no site: http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI4863651-EI8147,00-Arqueologos+encontram+tumba+de+principe+celta+na+Alemanha.html#tphotos
Por Redação Terra. Publicado no Portal Terra - Notícias em 28 de dezembro de 2010 • 12h21.

Arqueólogos retiraram nesta terça-feira uma tumba celta de 80 t da cidade de Herbertingen, na Alemanha. Jóias e outros objetos foram encontrados.

Foram encontradas joias e outros objetos na tumba. Foto: EFE. Imagem disponível em 27/03/2011 no site:http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI4863651-EI8147,00-Arqueologos+encontram+tumba+de+principe+celta+na+Alemanha.html#tphotos
Os pesquisadores acreditam que o túmulo pertencia a um príncipe celta. As informações são da agência EFE e do jornal Bild. Segundo a agência, foram necessárias duas gruas para retirar a tumba que deve seguir agora para um laboratório para ser analisada.


Tumba de 80 t é içada na cidade de Herbertingen, na Alemanha. Foto: EFE. Imagem disponível em 27/03/2011 no site: http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI4863651-EI8147,00-Arqueologos+encontram+tumba+de+principe+celta+na+Alemanha.html#tphotos



Encuentran tumba intacta de un príncipe celta del siglo VI a.C. en Alemania:


http://terraeantiqvae.com/profiles/blogs/encuentran-tumba-intacta-de-un

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sacro sepulcro

Algumas igrejas preservam, ainda hoje, quase dois séculos depois de proibirem o enterro em sua nave, as sepulturas dentro dos próprios templos. Participe deixando sua colaboração.


[Foto de Felipe Augusto de Bernardi Silveira de igreja em Ouro Preto] Imagem disponível em 18/03/2011 no site: http://revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3518


Por Ronaldo Pelli. Artigo publicado em 06/01/2011, na Seção "Observatório", do site oficial da Revista de História da Biblioteca Nacional [http://revistadehistoria.com.br/].



A disputa médio-higienista x parte do clero que gostaria de manter os enterros dentro das igrejas rendeu, ao menos, achados históricos. A discussão engrossou após a lei que proibia que o interior das igrejas brasileiras continuasse a ser usado como cemitério, no início do século XIX, como mostra o artigo de Felipe Augusto de Bernardi Silveira na RHBN n. 64, edição de janeiro de 2011. Mas algumas igrejas preservam, ainda hoje, quase dois séculos depois, as sepulturas dentro dos próprios templos.


Apesar de não se saber o número exato dessas construções religiosas que ainda continuam com tumbas em suas naves, é comum a lembrança de uma ou outra igreja com essa característica. Como acontece, por exemplo, com as chamadas cidades históricas de Minas. A Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João Del Rey, a Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, ou a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Ouro Preto, são três das lembradas.


Outras cidades mais antigas, como o Rio, também têm igrejas nessas condições, como a Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, onde fica parte dos restos mortais de Pedro Álvares Cabral. O arquiteto Renato Cymbalista, que já escreveu “Um roteiro pelos territórios da morte em São Paulo” (editado dentro da série “Dez roteiros históricos a pé em São Paulo”, editora Narrativa 1) e também “Cidades dos vivos: arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do estado de São Paulo” (editora Annablume), citou algumas paulistanas: “Lembro da igreja do pátio do colégio em São Paulo, que tem a cripta dos jesuítas, construída em meados do século XVIII; do túmulo de Fernão Dias Pais, no Mosteiro de São Bento em São Paulo; da Cripta (moderna) da Catedral da Sé em São Paulo, onde estão sepultados os bispos paulistas; dos jazigos do Mosteiro da Luz em São Paulo, onde recentemente foram encontrados dois corpos mumificados.”


Já a historiadora Vanessa de Castro Sial, que escreveu exatamente sobre a saída dos mortos dos templos, em “Das igrejas ao cemitério: Políticas públicas sobre a morte no Recife do século XIX” (Editora Secretaria de Cultura da Cidade do Recife), lembrou que a prática de colocar seus mortos dentro das igrejas continua, de maneira um pouco diferente. “A pessoa é enterrada em um dos cemitérios da cidade e após o prazo de exumação (que varia de 18 a 36 meses), os familiares compram ossuários nas igrejas para guardar os restos mortais. Geralmente esses ossuários estão localizados nas áreas laterais das igrejas, antigo local onde estavam as catacumbas.


Os ossuários são administrados por irmandades, confrarias ou pela paróquia. Constituem uma importante fonte de renda para as igrejas e agremiações religiosas.” Segundo Vanessa, todas as igrejas antigas de Recife possuem esses ossuários e, em 2001, quando ela fez a pesquisa, os preços desses depósitos ficavam entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil, mais taxas anuais de R$ 50 a R$ 150. “Santa Rita de Cássia possuía 730 ossuários; São José do Ribamar, 930 ossuários; Santíssimo Sacramento de Santo Antonio, 354 ossuários; Igreja de Nossa Senhora do Carmo, 650 ossuários”, conta ela. Como explicou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, os enterros nas igrejas não se encerraram, mas são privilégio das autoridades eclesiásticas. “Os dois últimos casos de sepultamento dentro de igreja [de Recife] foi de Dom Helder Câmara em 1999 na Igreja da Sé em Olinda e Frei Damião em 2007 na capela de N. S. das Graças do Convento de São Felix (bairro do Pina, Recife)”, lembrou Vanessa.


Em Vitória ainda se conserva, no atual Palácio Anchieta, sede do governo do estado do Espírito Santo, recentemente restaurado, uma lápide que é um mosaico em mármore negro e branco de Carrara e que veio de Portugal no início do século XVII. Ela marcava o local da sepultura do jesuíta José de Anchieta, que morreu em 1597, no lugar onde existiu a Igreja de São Thiago do Colégio dos Jesuítas da antiga Capitania do Espírito Santo (Rogério Piva). Foto Sagrilo, 2010. Imagem disponível em 18/03/2011 no site: http://www.mauricioprates.com.br/mauricioprates.asp?secao=coluna&datacadastro=15/08/2010&id=1728


Colabore com essa reportagem deixando nos comentários o nome e a localização das igrejas que ainda contém sepulturas em suas naves.


Fonte: http://revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3518

quinta-feira, 10 de março de 2011

Índia: Imperador construiu o Taj Mahal para a amada

O Taj Mahal com seu espelho d'água, um majestoso mausoléu. Imagem disponível em 10/03/2011 no site: http://www.webbusca.com.br/atlas/fotos/fotografias-taj-mahal.asp


Artigo publicado na seção "Perguntas Superinterressantes" da edição nº 109 de outubro de 1996 da revista "Superinteressante" [ http://super.abril.com.br/ ]


Quem construiu o Taj Mahal?


O mausoléu foi erguido no século XVII pelo imperador indiano Shanh Johan para homenagear uma de suas esposas, morta durante o parto ao dar a luz pela décima quarta vez. A amada chamava-se Arjumand Banu Began, também conhecida como Muntaz Mahal (que significa "a preferida do palácio") e viveu com o imperador de 1612 a 1631. Foi sua terceira mulher e, como o próprio nome indica, era a verdadeira dona do seu coração. A obra foi iniciada em 1632 na cidade de Agra, na Índia, e ficou pronta 22 anos depois. Foi planejada por arquitetos da própria Índia, Pérsia e regiões da Ásia Central, mas não se sabe de quem foi o projeto final.

Shanh queria um monumento que superasse tudo o que existia de belo para o mundo saber do seu amor. Na construção foram usados materiais preciosos de várias regiões: o mármore branco veio da cidade indiana Jodhpur, a pedra turquesa do Tibet, os corais da Arábia e a malaquita, um metal esverdeado, da Rússia. Mais de 20 000 trabalhadores levantaram o palácio que mede 580 metros de comprimento por 304 metros de largura. Ele tem um espelho d’água que reflete a obra, uma mesquita, uma casa de hóspedes e uma tumba onde estão enterrados os corpos dos dois amantes.

Rodeado por uma tela de mármore, o cenotáfios do Imperador e sua esposa residem no centro da sala. O corpo de Mumtaz Mahal foi enterrado no Taj Mahal, após sua morte, em 1631, Shah Jahan foi sepultado ao lado de sua esposa em 1666, (...). Os túmulos reais estão diretamente abaixo na cripta sombria. Parece que os planos originais para o mausoléu não incluem cenotáfio de Shah Jahan, que foi acrescentado após sua morte, três décadas mais tarde. Isso explicaria a posição assimétrica de seu mausoléu em um plano de outra forma totalmente simétrico. (tradução: Google Tradutor). Imagem e texto da legenda disponíveis em 10/03/2011 no site: http://www.taj-mahal.net/augEng/textMM/interiorengN.htm


O Taj Mahal, cujo nome quer dizer "a jóia do palácio", está ameaçado pela poluição. Suas paredes estão sendo corroídas. Atualmente, recebe 25 000 visitantes por dia. A história de amor que ele eterniza continua a inspirar poetas no mundo todo, como o brasileiro Jorge Benjor, que fez a música Taj Mahal.

A imponência do mausoléu, atualmente ameaçada pela poluição. Imagem disponível em 10/03/2011 no site: http://www.webbusca.com.br/atlas/fotos/fotografias-taj-mahal.asp


quinta-feira, 3 de março de 2011

O prazer da dor

Sensuais e acolhedoras, as jovens divindades esculpidas por Materno Giribaldi enriquecem cemitérios de São Paulo

No jazigo-capela feito por Giribaldi, mulheres com corpos bem delineados representam a missão do consolo diante da morte. Imagem disponível em 03/03/2011 no blog: http://eternity-art.blogspot.com/search/label/Jafet%20


Por Maria Elizia Borges. Fragmento de Artigo publicado nas páginas 66 a 71, Seção "Perspectiva" da Revista de História da Biblioteca Nacional [versão online: http://www.revistadehistoria.com.br/], Nº 65, Ano 6, de [01 de] Fevereiro de 2011.


Quando se visita um cemitério, o que se vê é uma série de túmulos adornados com cruzes, flores, vasos e imagens de santos e de anjos. Mas quem já viu esculturas como as de Materno Giribaldi – especialista em retratar mulheres em poses sensuais – enfeitando túmulos acaba se perguntando se não seria mais adequado que essas obras de arte ficassem expostas dentro de um museu. Possivelmente, elas estão ali para confirmar o quanto os vivos sentem necessidade de eternizar esses lugares com trabalhos artísticos repletos de significados, sejam sacros ou profanos.

Nas grandes metrópoles brasileiras, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e São Paulo, há cemitérios que são tidos como museus a céu aberto. Isto se deve ao fato de eles abrigarem uma grande quantidade de monumentos luxuosos, ornamentados com estátuas que muitas vezes narram a vida do falecido, reforçando a importância que ele teve. Ao longo da história da humanidade, cada sociedade desenvolveu uma maneira própria de homenagear seus mortos. Esse costume contribui para que os homens vivenciem o seu luto com mais profundidade.


(...) conjunto de esculturas de Materno Giribaldi construído em 1932 para um jazigo-capela no Cemitério da Consolação: referências cristãs em estilo art nouveau. Imagem disponível em 03/03/2011 no blog: http://eternity-art.blogspot.com/search/label/Jafet%20


Materno Giribaldi (1870-1935) nasceu na Itália, aos 60 anos mudou-se para São Paulo, onde instalou seu ateliê na década de 1930. O trabalho do artista apresenta elementos do simbolismo, representação visual que agrupa estilos artísticos europeus do final do século XIX, como o art nouveau (nova arte) e o liberty (noção de liberdade). Suas obras têm composições assimétricas com uma profusão decorativa de arranjos florais envolvendo mulheres nuas e seminuas. Elas expressam dor diante dos mistérios insondáveis da morte e, ao mesmo tempo, exaltam e glorificam a vida terrena. (...)

Leia a matéria completa na edição de Fevereiro, nas bancas.



Sobre MARIA ELIZIA BORGES:


É professora Adjunta de História da Arte na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Ministra aulas nos programas de Pós-Graduação: Cultura Visual (FAV) e História (FCHF). Pesquisadora do CNPq. Tem artigos publicados no país e no exterior sobre arte funerária no Brasil. Foi professora e coordenadora do curso de Artes Plásticas da Universidade de Ribeirão Preto, UNAERP (1973-91). Ministrou aulas na Faculdade de Arquitetura da Instituição Moura Lacerda (Ribeirão. Preto, 1992) e no curso de pós-graduação em História da Universidade Estadual Paulista, UNESP (Franca, 1994-95). Exerceu o cargo de Secretária da Cultura na cidade de Ribeirão Preto (1993). Integra o Comitê Brasileiro de História da Arte, a Associação Brasileira de Críticos de Arte e a Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas. É membership da Association for Gravestone Studies (EUA). É presidente da ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (Gestão 2008-2012).

Fonte: http://artefunerariabrasil.com.br/

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Campo Mourão (PR): Histórias e mitos cercam cemitério

Cruz de Cedro que virou árvore está até hoje no local. Imagem disponível em 26/02/2011 no site: http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio



Por Walter Pereira. Reportagem publicada no site do JORNAL TRIBUNA DO INTERIOR ( http://www.tribunadointerior.com.br ) nas "Notícias" de Campo Mourão em: 20/02/2011 - 11:07 Atualizado em: 26/02/2011 - 05:31

Quem nunca sentiu medo ou teve a leve sensação de um arrepio correr a espinha ao ouvir as sombrias histórias que acontecem entre os quatro cantos dos cemitérios? O local onde todos nos encontraremos um dia é sempre cercado de muitos mitos e mistérios. Os contos, reais ou não, sempre serão colecionados para serem contados por alguém. E no cemitério de Campo Mourão não poderia ser diferente. Tem coveiro que já viu desde bonecos vudu a filho desenterrar o pai e, acreditem se quiser, até uma cruz que já virou árvore.

A história do cemitério São Judas Tadeu começou oficialmente em março de 58, com o sepultamento de uma mulher. De acordo com os registros da administração, na região havia pelo menos outros quatro “campos santos”, que foram desativados em meados de 2005. Eles eram localizados no São Benedito, Piquirivaí e comunidades do KM 28 e 32. Em Campo Mourão, o primeiro cemitério a ser instalado no município foi no Lar Paraná. Ainda na década de 80, os corpos haviam sido todos removidos ao cemitério atual.

Atualmente, de acordo com informações da administração, há espaço apenas para mais 170 novas sepulturas no cemitério, ou seja, levando em consideração que em Campo Mourão morre uma média de 570 pessoas por ano, o local está com os seus dias contados. “É difícil estabelecer com certeza a quantidade de quantas pessoas ainda podem ser sepultadas. Muitos são enterrados junto de familiares”, explica o administrador João Maria Correa Gonçalves, acrescentando que até agora foram registrados oficialmente em torno de 19.586 sepultamentos.

Vandalismo

Em geral, os cemitérios por mais sombrosos que possam ser, são geralmente considerados espaços tranquilos, locais de paz. “Venho no cemitério toda semana para visitar alguns familiares e gosto da tranquilidade. A hora passa que nem vejo”, confirma a dona de casa, Fátima Herculano, de 38 anos.

No entanto em Campo Mourão, nem mesmo os mortos escapam da brutalidade dos vândalos, que destroem o local. Para se ter uma ideia somente nestes dois primeiros meses do ano, mais de 20 vasos já foram furtados, sem falar das inúmeras peças de bronze, que simplesmente desaparecem. “É difícil evitar. O local é muito grande e existe apenas um vigia para cada turno”, justifica Gonçalves, ressaltando que raramente alguma peça é recuperada.

A cruz que virou árvore

Fatos curiosos marcam a história do único cemitério do município. De acordo com o historiador Jair Elias dos Santos Júnior. Um destes mitos é a “Cruz de Cedro”, fincada no túmulo de Maria Silvério Pereira, esposa de Jozé Luiz Pereira. Trata-se da primeira pessoa que fixou, em definitivo, residência em Campo Mourão.

Por volta de 1905, Maria Silvério estava arando terra, quando então sofreu um acidente fatal. O cavalo que ela montava arrastou-o, agravando o seu problema abdominal. Os seus familiares fizeram a sepultura e colocaram uma cruz, feita de cedro.

Agoniado com a tragédia, Jozé Luiz resolveu ir embora para o Mato Grosso, onde estava seu irmão, Antônio Luiz Pereira. Com o passar dos anos, a cruz apodreceu, permanecendo somente seu tronco. Segundo os mais antigos, da terra do cemitério brotou vida e transformou a cruz de madeira em uma imensa árvore que está até hoje no cemitério.

Com o sepultamento de Maria Silvério, criou-se entre as famílias pioneiras o hábito de enterrar seus familiares no local. A história da cruz de cedro virou o conto “A cruz que virou árvore”, escrito pela historiadora Édina Simionato. (WP)

Jurandir, o coveiro que já viu ‘de tudo’

Pessoas mortas por apenas R$5, filho jogando lata de cerveja na sepultura dos pais, preservativos espalhados pelo cemitério, rituais de magia negra. Enfim, o coveiro Jurandir Ribeiro de Araújo, de 49 anos, que mantém o ofício há pelo menos 14, diz que já viu de tudo no campo santo de Campo Mourão.

“É lamentável você saber que alguém teve a coragem de matar uma pessoa por R$5. Fico pensando, como pode existir alguém assim. Já vi filho revoltado com o pai até no momento do enterro. Ele pegou a enxada da minha mão, abriu um buraco sobre a sepultura e jogou uma lata de cerveja dentro, enquanto falava palavrão contra o próprio pai”, conta o coveiro.

Preservativos no cemitério já cansou de encontrar. Além disso já encontrou rituais de magia negra, como bonecos espetados com agulhas, nomes de pessoas dentro de garrafas e até pequenos punhais enterrados na terra. "Quando encontro enterro tudo", comenta.

Ele relata até um caso inusitado, mas com tanto tempo no ofício e entendendo a dor da família encara com naturalidade. “Foi um dia em que estava sepultando o pai de uma moça e ela, inconformada, ficava me vendo como uma pessoa cruel. Dizia que o pai dela ia ficar sem ar embaixo da terra e que um dia alguém ia fazer daquele jeito comigo também”, conta ele, que diz não temer a passagem dessa vida. Evangélico, só se preocupa com uma coisa: alcançar a salvação eterna. “Só gostaria de ter a certeza da salvação. O resto não importa.”

Há tanto tempo enterrando gente, Araújo diz que já dividiu tristezas e derramou lágrimas junto a famílias. “Rapaz, tem hora que a gente não aguenta e chora junto. O meu trabalho me faz pensar na vida”, completa. (WP)
Jurandir trabalha há cerca de 14 anos no cemitério. Imagem disponível em 26/02/2011 no site: http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio


O retrato do descaso

Sepulturas em ruínas, carreadores na terra pura e sujeira, mas muita sujeira mesmo para todos os lados. Este é o estarrecedor retrato do São Judas Tadeu. Um dos locais mais visitados da cidade não oferece sequer o mínimo de estrutura aos visitantes. Atualmente, de acordo informações levantadas junto a administração, pelo menos 80% do cemitério não dispõe de asfalto. Os carreadores que estão com o que resta de malha asfáltica também estão bastante deteriorados.

A situação é ainda mais grave onde não tem asfalto. A erosão já começa a formar valetas entre os túmulos. De acordo com os próprios funcionários, quando chove o local fica praticamente intransitável.

A reportagem entrou em contato com o secretário de planejamento para saber se existe algum projeto de melhorias para cemitério, mas não o encontrou. (WP)

Há 28 anos idosa limpa e conserva túmulos

Um ofício nada comum e que, de certa forma, exige muita coragem. Afinal de contas não é qualquer pessoa que se dispõe a cuidar de túmulos. É arrepiador, ainda mais por se tratar de cemitério. Estamos falando de uma personagem real. Ela se chama Nair da Rocha da Silva, de 66 anos, que há pelo menos 28 anos limpa e conserva túmulos no cemitério. A idosa presta os serviços particulares e, por mês, consegue tirar algo em torno de pouco mais de um salário.

Dona Nair, como é mais conhecida, é uma senhora franzina, tímida, mas corajosa. Hoje ela é responsável pela conservação de pelo menos 60 túmulos no cemitério São Judas Tadeu. Há quase três décadas trabalhando ao lado dos mortos, ela afirma que nunca presenciou nenhum fenômeno estranho, muito menos se sentiu mal ou amedrontada por estar próxima aos defuntos. “Me sinto em paz”, sintetiza.

Dona Nair, como é mais conhecida, limpa pelo menos 60 túmulos por mês. Imagem disponível em 26/02/2011 no site: http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio


No entanto a zeladora faz uma ressalva, diz que a única coisa que a incomoda são as macumbas espalhadas pelos estreitos carreadores junto às tumbas. “Já encontrei velinhas coloridas de ‘saravá’ e até galinha preta morta”, revela.

Todos os dias, pelo menos desde que começou a trabalhar no cemitério, a rotina de Nair é a mesma: pegar no trabalho às 8 horas da manhã com parada às 6 horas da tarde. Ela diz que os pais, entre outros parentes estão sepultados no local e aproveita também para visitá-los.


Nair faz questão de ressaltar as inúmeras amizades já consolidadas no local. Além dela, pelo menos outras 10 mulheres aderiram ao ofício. A senhora lembra que hoje, boa parte da limpeza é feita por ela, mas que no futuro, quando também estiver no mundo dos mortos espera que outra pessoa continue a tarefa. “Não pode esquecer de limpar o meu túmulo também”, brinca. “Às vezes a gente brinca, mas é verdade”, completa com leve sorriso estampado no rosto tímido. (WP)



Fonte:http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio