Imagens disponíveis em 06/07/2010 no site: http://www.classelider.com/noticia/?new_id=2232De um lado, os legalistas [soldados do governo] partiam para o ataque afim de sufocar a revolta. Do outro, militantes paulistas se uniam para enfrentá-los com armamento diferenciado e estratégias que, de início, renderam bons resultados. Em São José do Barreiro, os combatentes paulistas - em quase 90% formados por voluntários - estavam armados com espadas cujas pontas eram mais arredondadas que as dos adversários. As espingardas também tinham particularidades como estrutura mais alongada e balas mais grossas que provocavam maior impacto em quem era atingido por um tiro. A estratégia dos revoltosos nessa cidade foi adotar o cemitério como acampamento, uma vez que ele ficava em uma área alta e de visibilidade privilegiada do entorno.
Mas no dia 13 de julho, em um ataque surpresa, os legalistas atacaram os paulistas dentro do cemitério. As marcas desse conflito podem ser vistas até hoje em árvores e túmulos locais. A historiadora Ludmila Pena Fuzzi, do IPHR (Instituto de Pesquisa Histórica Regional), desenvolve um trabalho de campo no local e conta que moradores antigos relataram fatos ocorridos ali, na época - muitos deles já foram confirmados por pesquisadores.
“Os paulistas estavam vencendo a batalha em terra, como nos contaram os moradores, e pudemos comprovar por meio de vestígios deixados pela batalha. Mas quando o exército brasileiro se deu conta da força dos paulistas, enviou os vermelhinhos e bombardeou o território”, disse Ludmila. Os vermelhinhos eram aviões leves, com lugar para duas pessoas. Deles foram jogadas granadas feitas com pólvora, que deixaram os paulistas em desvantagem.
“O cemitério é o único do Estado que é composto por palmeiras imperiais. Elas ajudavam os resistentes a se esconderem. Os legalistas só chegaram até eles, no dia 13 de julho, porque alguém lhes deu essa informação”, disse.
O pesquisador Tacilim Oréfice, do IPHR, conta que alguns túmulos hoje são afundados no solo por consequência da ação desses explosivos. “A degradação desse patrimônio começoucom essa batalha”, disse.
À ÉPOCA, OS COMBATENTES ERAM QUASE TODOS VOLUNTÁRIOS
O primeiro tiro da revolução foi dado em 9 de julho, a 10 quilômetros do Cemitério dos Escravos, que ainda não recebia esse nome. “Mas foi um tiro antecipado, porque planejava-se estourar a revolução mais tarde”, disse. O mato alto do cemitério era outro fator que favorecia a camuflagem dos combatentes. Naquela época, não eram feitas manutenção no espaço.
Os revolucionários se alimentavam com o que moradores próximos ao acampamento serviam a eles. A equipe de Ludmila deve fazer escavações para buscar elementos que comprovem o fato, dito por fontes entrevistadas, de que houve uma trincheira em um dos cantos do cemitério.
HISTORIADORES CONFIRMAM LENDA ANTIGA
Tratava-se de uma imagem pequena de um anjo, que foi encontrada pelos pesquisadores no Asilo Municipal. A história conta que um dos soldados da batalha teria dado um tiro acidental nesta imagem. Com o impacto, a asa do anjo representado quebrou.
O autor do disparo, com medo de ser preso por isso, teria roubado o monumento. “Há mais de 40 anos as pessoas contavam essa história e um dia alguém disse que havia umas peças da Revolução reunidas no Asilo de São José do Barreiro. Fomos até lá e, entre elas, encontramos um anjo pequeno com as asas quebradas e uma marca de tiro”, disse a pesquisadora Ludmila Pena Fuzzi.
CEMITÉRIO - O cemitério de São José do Barreiro foi fundado em 1835 e é repleto de simbologias. Ele recebe o nome de “Cemitério dos Escravos” em razão de uma homenagem prestada no centenário da cidade, em 1959.
“O vigário da época quis comemorar os 100 anos com um monumento com o corpo de três escravos no cemitério. A lápide apresenta os escravos como operários e desbravadores dos sertões, deixando aquele discurso de que eles eram objetos”, disse a historiadora. Pelo formato de trapézio e as ruas em formato de cruz, é possível afirmar que este cemitério era litúrgico - ou seja, pertencia à igreja.
HOMENAGEM - No último final de semana, cerca de 100 pessoas entre moradores da cidade, autoridades e pesquisadores se reuniram na primeira celebração pública realizada no Cemitério dos Escravos. Eles relembraram essa história em uma ação que visava despertar na população uma consciência histórica e de preservação. (Fonte: Valeparaibano [http://www.valeparaibano.com.br/] ).











