A morte nos faz cair em seu alçapão, / É uma mão que nos agarra / E nunca mais nos solta. / A morte para todos faz capa escura, / E faz da terra uma toalha; / Sem distinção ela nos serve, / Põe os segredos a descoberto, / A morte liberta o escravo, / A morte submete rei e papa / E paga a cada um seu salário, / E devolve ao pobre o que ele perde / E toma do rico o que ele abocanha.
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII. São Paulo : Ateliê Editorial / Editora Imaginário, 1996. 50, vv. 361-372)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Belém (PA): Abandono centenário degrada Cemitério da Soledade

Por Anderson Araújo (da Redação). Artigo publicado no jornal O Liberal (da cidade de Belém -PA), pág. 21, Seção Poder, de 13/11/2011. (clique na imagem ou salve no computador para ampliar)


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Belo Horizonte (MG): Cemitério do Bonfim é tema de exposição no MHAB

Vista do Cemitério do Bonfim tendo ao fundo a cidade de Belo Horizonte. Imagem disponível em 01/11/2011 no site: http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/noticia.do?evento=portlet&pAc=not&idConteudo=51672&pIdPlc=&app=salanoticias




Notícia extraída da "Sala de Notícias" do Portal da Prefeitura de Belo Horizonte ( http://portalpbh.pbh.gov.br/ ) publicada em 17/10/2011 15:15:20.


O Museu Histórico Abílio Barreto exibe a exposição de curta duração “Descobrindo o Bonfim: o cemitério como lugar na cidade dos vivos”. Por meio de textos, fotos e objetos, a mostra propõe uma reflexão sobre o Bonfim para além do recinto onde se coloca a dor ou simplesmente o corpo sem vida, mas como lugar institucional, intersticial, portador de história, símbolo e arte e como parte importante da vida na cidade.

O Cemitério Nosso Senhor do Bonfim, denominado originalmente Cemitério Municipal, foi projetado pelos engenheiros-arquitetos Hermano Zickler, José de Magalhães e Edgar Nascentes Coelho, membros da Comissão Construtora da Nova Capital. Aberto em 1897, o local escolhido para a sua implantação, na região conhecida como Lagoinha, era alto e arejado, e a ocupação das quadras se deu a partir do prédio projetado para ser o necrotério.

Os mesmos artistas e artesãos cujas obras adornavam as edificações da cidade, em sua maioria imigrantes italianos, reproduziram nos túmulos e mausoléus a linguagem eclética dos edifícios da capital. Os materiais predominantes, até a década de 1920, foram o mármore e a pedra-sabão. A partir dessa época, o granito e o bronze também se fizeram presentes.

O nome Bonfim, que faz referência ao martírio de Jesus na cruz e simboliza proteção, passou a figurar em mapas, plantas e relatórios oficiais a partir da década de 1930. Foi escolhido pela população de Belo Horizonte e indica valores religiosos integrados ao imaginário social.

A exposição permanecerá em cartaz por um período aproximado de seis meses e pode ser visitada às terças, sextas, sábados e domingos, das 10 às 17h, e nas quartas e quintas, das 10 às 21h.


Fonte: http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/noticia.do?evento=portlet&pAc=not&idConteudo=51672&pIdPlc=&app=salanoticias

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Acre: Cemitério abandonado esconde história da hanseníase no Juruá


"(...) cruzes cobertas de capim e lixo. Algumas ainda revelam nome dos hóspedes importunados, cujas memórias a cidade (Cruzeiro do Sul), segunda maior do Acre, tenta esquecer a qualquer custo."




Por Dilson Ornelas. Artigo publicado originalmente no site: www.vozdoacre.com e disponível desde 30 de Novembro de 2010 02:00 no site: http://www.vozdonorte.com.br de onde retiramos todas a fotos aqui postadas.


Hansenianos de Cruzeiro do Sul (AC), no Vale do Juruá, que tanto sofrimento e humilhação amargaram em vida, nem mesmo na morte conseguem o descanso a que teriam direito. O cemitério onde estão sepultados, no Bairro do Telégrafo, está tomado pelo mato e, em meio a ratos e cobras, transformou-se em esconderijo de traficantes e dependentes químicos. Os vizinhos pouco comentam o assunto e sequer chamam a polícia, temendo represarias de marginais.


Quanto ao abandono, o secretário municipal de Obras, Osmar Bandeira, afirma que a prefeitura é responsável pelos outros dois cemitérios da cidade, "mas de vez em quando alguns funcionários vão lá cortar o mato. Não se sabe quem são os responsáveis por aquele cemitério", declara Bandeira. Essa Reportagem apurou que eles não existem, e o cemitério que nem nome tem, não evita a discriminação contra os hansenianos, mesmo após a morte.




"No incômodo Campo Santo, sem muro e sem manutenção, uma pequena capela parcialmente destelhada é a testemunha mais antiga das cruzes cobertas de capim e lixo."



No incômodo Campo Santo, sem muro e sem manutenção, uma pequena capela parcialmente destelhada é a testemunha mais antiga das cruzes cobertas de capim e lixo. Algumas ainda revelam nome dos hóspedes importunados, cujas memórias a cidade, segunda maior do Acre, tenta esquecer a qualquer custo.


Uma das vizinhas do local invadido por desocupados pede para não ser identificada, e diz que "eles (os bandidos) arrombam os portões e entram nas casas, se os moradores se descuidam. Usam droga à noite, e às vezes até na luz do dia, porque isso aqui está largado há muitos anos". De acordo com ela, os moradores temem chamar a policia e sofrer alguma retaliação.


Completamente desconhecida pela população mais jovem, a pequena necrópole caiu no esquecimento de pessoas acima de cinqüenta anos. Moradora de um bairro próximo, Maria (o sobrenome é omitido propositalmente) não lembra mais a localização do cemitério. "Eu não sei onde fica, mas deve ser onde queriam enterrar meu marido", afirma a viúva. Ela diz que com a ajuda de amigos políticos, conseguiu enterrar o marido portador de hanseníase em outro lugar.


Mesmo ignorado pelo poder público, desconhecido da nova geração, e profanado por bandidos, o terreno com aproximadamente trinta covas aponta para um passado difícil de enterrar. A hanseníase que separou para sempre milhares de famílias, e como nos tempos bíblicos, também gerou repulsa e preconceito, ainda mostra seqüelas no corpo e na mente de pessoas curadas com a chegada de potentes medicamentos do governo.


Tem um cemitério no meio do caminho



O ex-prefeito e atual vice-governador Cesar Messias, de acordo com o vereador Celso Lima Verde, durante um período de obras tentou em vão remover o cemitério construído sobre a Rua Banjamin Constant, que liga os bairros do Telégrafo e Remanso. O juiz da época não permitiu e o jeito foi desviar a rua.


No tempo do leprosário Colônia Ernani Agrícola, havia outro cemitério com milhares de hansenianos enterrados, a maioria como indigentes, situado onde hoje está o Hospital Dermatológico. O vereador lembra que ainda aos 11 anos, ajudava nos sepultamentos. "Tinha dia que a gente enterrava até três pessoas". O bispo D. Henrique Ruth, com apoio do governo, ordenou que se retirasse dali todas as tumbas, para a construção do hospital.


Histórias de dor



Celso Lima Verde, aos 70 anos, recorda que foi retirado pela polícia à força de uma sala de aula, aos 9 anos de idade, quando descobriram que ele era hanseniano. Já em seu quarto mandato, mostra as mãos retorcidas pela doença.




Celso Lima Verde, aos 70 anos, recorda que foi retirado pela polícia à força de uma sala de aula, aos 9 anos de idade, quando descobriram que ele era hanseniano.





Celso fez parte do esforço para tentar dar dignidade e respeito a essas pessoas. Hoje, se locomove com ajuda da prótese que substitui um de suas pernas. E é admirado pela população não só por sua força de vontade, mas pelo bom-humor e pela facilidade com as palavras. Porém, Celso ainda vai às lagrimas quando fala do sofrimento que vivenciou.


"Naquela época não havia remédio para o tratamento da hanseníase, aí o médico Abel Pinheiro, ex-governador, receitava Melhoral (analgésico). À noite era uma gritaria muito grande. Não havia o que parasse a dor que a gente sentia, quando os nervos retorciam nossos dedos", lembra Celso, que precisa de uma prótese para se locomover.


Histórias tristes, carregadas de tanta dor, praticamente não interessam mais a ninguém em Cruzeiro do Sul, mas durante décadas o município foi cenário de um dos piores dramas de degradação do tecido social. Isso ocorreu em várias partes ao norte do Brasil e em países vizinhos ao Acre, como mostra o filme "Diários de Motocicleta", de Walter Salles. A película revela que, na década de 50, o médico argentino Ernesto Che Guevara, especialista em hanseníase, visitou leprosários na localidade peruana de Pucalpa, quase na fronteira com o Acre.


Novos casos


Em 2009 foram 44, e de janeiro a outubro deste ano foram localizados mais 12 novos casos da doença em Cruzeiro do Sul. Hoje o tratamento é eficiente e dispensa a internação, mas as péssimas condições de higiene e a desnutrição, que também favorecem ouras outras mazelas, até hoje continuam favorecendo os bacilos da hanseníase, em uma população abandonada pelo poder público.


Cerca de quatro mil sobreviventes ao flagelo da doença estão reintegrados ao convívio social em Cruzeiro do Sul, município de 79 mil habitantes. Alguns deles são comerciantes, e a maioria recebe alguma aposentadoria. Na opinião do vereador, somente um quarto dos hansenianos dos internos daquela época, era de cruzeirenses, a grande maioria vinha de outros municípios do Acre, e até do Amazonas.


A Secretaria Municipal de Saúde continua contabilizando novos casos, principalmente nas ocasiões de busca ativa. Às vezes aparecem doentes já em estado avançado da doença, moradores de locais de difícil acesso, com seqüelas irreversíveis.

Fonte: http://www.vozdonorte.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=131:cemiterio-abandonado-esconde-historia-da-hanseniase-no-jurua-&catid=47:meio-ambiente&Itemid=63




quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Memórias e saudades divididas onde a história jaz

Cemitérios de São Leopoldo remetem a saudades, mas também ajudam a contar história do Município.
Memórias e saudades divididas onde a história jaz. Foto: Adriana Tauchert/Da Redação. Imagem disponível em 18/08/2011 no site:http://www.diariodecanoas.com.br/regiao/225688/memorias-e-saudades-divididas-onde-a-historia-jaz.html



Por Adriana Tauchert/Da Redação. Artigo publicado no Diário de Canoas - Vale dos Sinos - Região - 31/10/2009 11h30 Atualizado em 10/04/2011 22h28

São Leopoldo [RS]- Entre as lápides e jazigos dos cemitérios de São Leopoldo repousam muito mais do que entes queridos. Nestes locais que nos remetem a sentimentos como a saudade e a dor, também estão as origens do Município. Nos falta, em geral, esta consciência de que os cemitérios podem nos revelar a memória da cidade, do povo, das famílias que ajudaram a criar e desenvolver o Vale do Sinos. Locais de reflexão e culto, os cemitérios guardam nossa história, a qual, poucos reverenciam de fato.

Em São Leopoldo há controvérsia quando o assunto é saber qual foi o primeiro cemitério da cidade no século 19. Sem um registro oficial e exato, restam os indícios. Conforme o historiador Germano Moehlecke, o primeiro cemitério foi o da Feitoria, hoje denominado Cemitério Municipal Pedro Carlos Becker. Já a administradora dos cemitérios municipais, Ermelinda Camargo acredita que o mais antigo é o Cemitério Municipal Cristo Rei.

Conforme Moehlecke, o da Feitoria deve ser o primeiro por estar localizado próximo à Casa do Imigrante, casa que abrigou os primeiros 39 imigrantes alemães que chegam ao Município em julho de 1824. "No pátio da própria Casa do Imigrante há cerca de dez túmulos antigos de pessoas que viveram, não só em São Leopoldo, mas de outras cidades da região como Estância Velha.’’

Indícios - Registros para comprovar datas não há. "Em 2001, um incêndio destruiu todos os documentos, inclusive fichas de pessoas sepultadas e cadastros de terrenos do Cristo Rei’’, conta a coordenadora dos cemitérios. Até a data do incêndio, os documentos ficavam guardados em uma construção no próprio cemitério. Os documentos posteriores ao incidente passaram a ser guardados na administração dos cemitérios municipais de São Leopoldo. O Cartório de Registros começou suas atividades em 19 de setembro de 1876 e nesta época os enterros já ocorriam no Cristo Rei, que hoje conta com cerca de 22 mil corpos sepultados.

Moehlecke diz que cerca de dois anos após o início da imigração, foi criado outro cemitério além do da Feitoria, na região onde hoje se localiza a Escola Municipal Villa Lobos, no Centro. "Mas não tenho conhecimento de que existem registros sobre a sua história e dados sobre o primeiro corpo a ser enterrado."

Registros dizem que mortos foram lançados ao mar
O professor de Pós-Graduação em História da Unisinos, Martin Dreher, acredita que o primeiro cemitério de São Leopoldo foi o da Feitoria. "O Cemitério da Feitoria é anterior à imigração. Mas não há mais sepulturas daquela época. Nele devem ter sido enterrados escravos e pessoas da Feitoria do Linho e Cânhamo’’, conta Dreher, que no início deste ano começou a pesquisa Os Cemitérios da Colônia Alemã.

Os primeiros registros da Comunidade Evangélica apontam que em 1830, um comerciante, Jacob Riehl, com 36 anos, foi sepultado neste cemitério. Mas as anotações começaram seis anos antes, ainda em 1824. O primeiro registro, por exemplo ocorreu ainda no navio, na segunda leva dos imigrantes alemães. Foi o de Pauline Dorothea Germania Jericke, evangélica, nascida em 29 de junho de 1824 e falecida em 4 de agosto do mesmo ano. Diz no registro que o corpo foi lançado ao mar, às 14 horas, inclusive com detalhes sobre a latitude e longitude.

Também o sapateiro Johann Springer, católico, que faleceu em 29 de agosto de 1824 foi lançado ao mar. Os registros foram feitos porque havia um pastor entre os imigrantes: Johann Georg Ehlers. Muitos registros posteriores não falam em local do enterro, mas chamam atenção pelo grande número de crianças.
Dreher diz que depois do cemitério da Feitoria surgiu o da vila, onde hoje é a Escola Villa Lobos. "Eu desconfio que as palmeiras que hoje estão lá são remanescentes daquela época. No local, o lado esquerdo era para enterrar os evangélicos e o direito para os católicos. Ele foi extinto devido a uma epidemia de cólera e tifo, sendo os corpos levados para fora da cidade onde hoje é o Cristo Rei.’’

Uma valiosa fonte de pesquisa
Para o historiador do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, Marcos Antônio Witt, o cemitério é uma fonte de pesquisa valiosa. Ele buscou em túmulos e lápides dados de genealogia para o seu livro Em busca de um lugar ao sol: Estratégias Políticas, lançado no ano passado. "Nos cemitérios é possível encontrar informações como datas de nascimento e de morte da pessoa. Em papéis as informações se perdem.’’

O historiador ressalta que é possível obter informações sobre a organização social de um grupo. "Há desde túmulos elaborados até outros bem simples. O grau de sofisticação do túmulo e a própria localização dão uma ideia do prestígio que a pessoa teve.’’ Witt buscou informações sobre em cinco cemitérios, entre eles da Feitoria, de Novo Hamburgo, Estância Velha e Três Forquilhas.


Conservando nossa memória
Conforme o historiador Germano Moehlecke, a conservação dos cemitérios é importante para o Município porque resgata a memória da cidade, além de ser uma forma de demonstrar respeito aos precursores. No Cemitério Municipal de São Leopoldo, por exemplo, entre outros nomes importantes, está o túmulo do médico e vice-diretor da Colônia Alemã de São Leopoldo, João Daniel Hillebrand, que veio na segunda leva de imigrantes em novembro de 1824; dos prefeitos Theodomiro Porto da Fonseca, Mário Sperb, Maria Emília de Paula, deputados estaduais Jorge Germano Sperb, Othon Blessmann e Frederico Guilherme Schmidt que fizeram parte da história do Município e hoje são homenageados pelo seu trabalho dando nome a ruas, avenidas e escolas.


Foto: Carlos Félix/GES


FONTE:http://www.diariodecanoas.com.br/regiao/225688/memorias-e-saudades-divididas-onde-a-historia-jaz.html

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os animados cemitérios medievais

As necrópoles já foram um bom lugar para morar, namorar, jogar bola, dançar, comer, beber e fazer compras. A vida social entre túmulos chegou a tal nível de efervescência que a Igreja passou a legislar sobre o uso do espaço



Entre os túmulos, jovens formavam alegres e ruidosas rodas de dança/Farândola, ilustração de manuscrito, autor desconhecido, séc. XI. Acervo:BIBLIOTECA MUNICIPAL DE POITIERS



Por Séverine Fargette-Vissière. Reportagem publicada na edição nº67 de Maio de 2009 na Revista HISTÓRIA VIVA [http://www2.uol.com.br/historiaviva/].






Os cemitérios da Idade Média nada tinham de tenebroso. De dia ou de noite, era neles que a população das maiores cidades européias buscava se divertir, quando não fixar residência provisória ou definitiva. Além disso, as necrópoles eram também um espaço de cidadania, pois lá sempre estavam juízes a comunicar sentenças, e o equivalente aos prefeitos de hoje a dar publicidade a suas ações. Esses locais funcionavam ainda como cartórios a céu aberto. Não que as condições ajudassem, pois já havia acúmulo de corpos e problemas de higiene e limpeza. Mas, de fato, os cemitérios atraíam. Eram um componente da urbanidade de então, construída através dos séculos e com origens bastante remotas.

Na Antigüidade romana, os mortos eram enterrados fora da cidade, na beira de estradas ou em vastos espaços subterrâneos, as catacumbas. Com a cristianização da sociedade, surgiu a tendência a aglomerar os defuntos nas proximidades dos lugares sagrados, como tumbas de santos e igrejas, na expectativa do Juízo Final e da ressurreição dos corpos.

Assim se definiu um espaço sagrado, quadrangular e fechado: o átrio ou adro no terreno das igrejas. Com isso, a morada dos mortos passou a ser o centro das cidades e aldeias, num estreito convívio com os vivos.

Nas pequenas cidades medievais, cercadas de muralhas, os cemitérios tinham o poder de atrair as pessoas e, por isso, não surpreende que tenham assumido uma função principalmente religiosa. Era no espaço cercado em que se enterravam os defuntos que os vivos ouviam as palavras dos padres e recebiam sacramentos. A igreja era muito pequena para acolher a massa de fiéis e, além disso, a pregação entre os mortos impressionava mais os espíritos.



Desfiles da monarquia terminavam nos átrios de igrejas/ Procissão das relíquias de Luis IX, ilustração de manuscrito, cardeal-mestre Bourbon, séc. XIII. Acervo: BIBLIOTECA NACIONAL DA FRANÇA, PARIS.




Os pregadores itinerantes também gostavam de se instalar nos átrios a fim de lembrar aos vivos a sua aterrorizante natureza mortal e exortá-los ao arrependimento. Além disso, certas cerimônias tinham naturalmente por cenário a morada dos mortos: a de Finados e a missa de Ramos, que dá início à celebração da paixão e morte de Jesus. Daí para o local se tornar ponto de partida ou de chegada de outras grandes celebrações, procissões e peregrinações não custou muito.

O cemitério foi se tornando, assim, o lugar ideal para toda reunião pública, religiosa ou laica. Na Idade Média, tornou-se o local de escolha para que o prefeito informasse seus aldeões de suas medidas. As chamadas “barras do tribunal”, grade ou cerca que separa o juiz do público e do acusado, também eram instaladas nesses pátios das igrejas.

Foi no cemitério de Rouen, na França, que o tribunal eclesiástico julgou Joana d’Arc, por exemplo. Os inquisidores, embora interrogassem secretamente as suas vítimas, pronunciavam a sentença publicamente num estrado erguido no cemitério. Mesmo os atos de direito privado, como doações, vendas e trocas, eram tornados públicos no cemitério. Alguns atos jurídicos chegavam a associar os mortos aos vivos: um costume disseminado na Bélgica previa que uma viúva podia se livrar de dívidas mediante uma cerimônia em que depositava no túmulo do marido “a sua cinta, as suas chaves e a sua bolsa”.

Também era na necrópole que se pronunciava a pavorosa sentença de “morte civil” dos leprosos, cerimônia que copiava fielmente os ritos fúnebres. Expulsavam-se os leprosos da comunidade dos viventes, entregando-lhes os instrumentos de sua nova condição: as luvas, a gamela e a barulhenta matraca, com que anunciavam sua passagem para que as pessoas sãs se afastassem.






Velórios eram um entre dezenas de usos dos campos-santos/Enterro em átrio de igreja medieval, iluminura, Gillion de Trazegnies, séc. XIV, França. REPRODUÇÃO





Muitos desses costumes perduraram até o século XVIII. Só no século XIX, as reuniões e os anúncios públicos migraram para as prefeituras. Mas nem sempre a Igreja viu essas reuniões com bons olhos. Chegou a tentar proibi-las a partir do século XII, sem sucesso. Convém lembrar, contudo, que se tratava mais de conflitos entre a autoridade religiosa e a laica do que propriamente de preocupação com o respeito aos mortos.

De fato, o cemitério extrapolou tanto sua finalidade original que, em dado momento, se tornou um lugar de comércio muito freqüentado. Lá se encontravam bancas de “carniceiro” – como eram chamados os açougueiros –, lojas e até mesmo tabernas.

Os comerciantes gostavam da localização, isenta de alvarás e impostos e com constantes reuniões populares, o que garantia freguesia variada. Nos dias de peregrinação, improvisavam- se mercados e feiras. O comércio de bebidas se multiplicou. Os taberneiros fincavam sua tabuleta e não vacilavam em cavar porões para conservar os tonéis de vinho e cerveja naquele solo repleto de ossadas.

Em 1402, Paris proibiu os comerciantes de expor mercadorias sobre os túmulos. Em vão. Até o século XVIII, as lojas se alinhavam no cemitério dos Inocentes, tanto que se falava no “ossário dos vendedores de roupa” e no “ossário dos escreventes”. Um viajante descreveu esse lugar incrível, no qual se via “uma fila dupla de lojas de escreventes, de vendedores de roupa, de livreiros e de mercadores de panos. (...) Em meio a essa confusão, procedia-se à exumação, abertura de um túmulo para substituir cadáveres ainda não totalmente consumidos”.




A Via Ápia, estrada onde se instalavam as necrópoles na Antigüidade romana. Foto: CREATIVE COMMONS



Embora não se importasse com a proximidade dos defuntos, o público se queixava dos fétidos odores que o chão exalava e das escavações que muitas vezes revelavam corpos mais ou menos descarnados. Entretanto, os europeus e os viajantes estrangeiros aglomeravam-se nos cemitérios com interesse e curiosidade.

Só não era recomendado passar a noite no local. O escritor renascentista François Rabelais registrou que “pedintes, mendigos e miseráveis” lá vadiavam, sem contar os condenados foragidos da lei. Os campos-santos, tal como concebidos nos tempos medievais, tinham uma reputação tão detestável que o humanista concluiu que Paris era “uma boa cidade para viver, mas não para morrer”.

CULTIVO DE ALIMENTOS Os artesãos e os comerciantes não eram os únicos a assediar os cemitérios europeus. Alguns pareciam jardins, pois foram dotados de árvores e arbustos floridos, escolhidos a dedo para favorecer a prece e a contemplação. Outros, possivelmente concebidos de forma mais pragmática, se transformaram em espaços agrícolas arados e semeados, nos quais se produziam cereais e legumes.

No século XI, a cevada era abundante no cemitério Saint-Gervais, na França. Na região da Normandia, a igreja chegava a condenar a população caso os cemitérios não fossem cultivados. Em diversos casos, era necessário cavar um poço ou providenciar outra forma de abastecimento de água. Tais atividades agrícolas às vezes geravam conflitos entre os fiéis, as autoridades religiosas e as laicas, envolvendo a cobrança de taxas sobre as colheitas.






O que restou do cemitério medieval inglês The East Smithfi eld Black Death. Foto: MUSEUM OF LONDON ARCHAEOLOGY




No fim da Idade Média, a Igreja romana legislou para expulsar todas as atividades que perturbassem a quietude dos lugares. Foi proibida a venda de pão, aves, A Via Ápia (à esq.), estrada onde se instalavam as necrópoles na Antigüidade romana peixes e outras mercadorias, com exceção de velas.

A Igreja também passou a condenar as atividades lúdicas, pois os jovens passeavam e namoravam nos cemitérios. Como se não bastasse, eles ainda jogavam bola, cortejavam as moças à sombra dos ossários e dançavam entre os túmulos a farândola, uma dança medieval muito popular, em que vários participantes fazem uma roda, que evolui para outras formações.

Na segunda metade do século XII, um sacerdote de Liège, na França, reclamou dos fiéis que, todos os domingos e dias santos, “freqüentam os mimos, as dançarinas, os histriões, embriagam-se e se rendem ao jogo, assistem ou se misturam à dança sedutora das mulheres, entregam-se a cantos obscenos e a posturas impudicas diante da porta das igrejas e sobre o túmulo dos pais”. Novas tentativas de proibição, porém, fracassaram.

Os cemitérios se tornaram também lugar de refúgio. Em tempo de guerra, os aldeões lá se abrigavam, às vezes com todos os seus bens. Quando os conflitos perduravam, eles organizavam pequenos quartos por cima dos ossários ou construíam casas ao longo da cerca. O gado pastava, já que o capim grassava ao redor dos túmulos, e acumulava em toda parte montes de estrume. Em tempos de insegurança, os túmulos também serviram como esconderijo de bens dos habitantes de algumas localidades.



Joana d´Arc foi julgada num cemitério, em sessão pública/ Joana D’arc na fogueira, pintura, E. Lenepveu, 1889, Panteão de Paris, França. Acervo: MUSEU JULES-EUGÈNE LENEPVEU, PARIS.




Por vezes, a função de refúgio chegava a anular a principal vocação do campo-santo: no século XII, um bispo, por solicitação dos habitantes da cidade francesa de Redon, fundou um cemitério em que não se admitiam cadáveres. Tratava-se de um espaço abençoado “para refúgio dos vivos, não para sepultura dos mortos”. Mas essa decisão exasperou os monges locais que lá queriam ser enterrados e acabaram obtendo ganho de causa.

Na verdade, a segurança dos cemitérios os transformou em lugares habitados. O Concílio de Troyes, do ano 878, já determinava que os que ousassem arrombar igrejas ou roubar as casas situadas no recinto dos cemitérios cometiam um grave sacrilégio. O problema é que os refugiados por vezes se sentiam tão bem em espaço protegido que tendiam a se fixar, e os clérigos não conseguiam expulsá-los.

Não raro, os padres também ocupavam essas vivendas ou tratavam de lucrar alugando pequenos lotes. Nesses períodos, os vivos chegavam a desalojar os mortos, pois as casas invadiam todo o espaço e já não era possível enterrar ninguém. De tempos em tempos, a Igreja cuidava de colocar ordem na ocupação, mas sem reduzir o interesse dos inquilinos.Curiosamente, o cemitério chegou a ser um lugar cobiçado: lugar sagrado, aluguel barato e imunidade contra abusos da polícia eram condições atraentes.

Existia ainda uma categoria particular de habitantes permanentes: as reclusas. Mulheres que, por espírito de devoção, se deixavam confinar vivas em casinhas apoiadas na igreja do cemitério. Bem acomodadas, algumas chegavam a uma longevidade excepcional. Foi assim que, em 1470, o rei Luís XI decidiu homenagear uma tal Alix la Bourgotte, que falecera depois de ter passado 46 anos reclusa no cemitério dos Inocentes. Na mesma época, outras mulheres lá foram confinadas, se bem que a contragosto, como certa Renée de Vendômois, condenada à prisão perpétua pelo assassinato do marido.



A área de sepultamentos em Paris, bem no meio da cidade Cemitério dos Inocentes, gravura, autor desconhecido, século XVIII. REPRODUÇÃO



Nem sempre, porém, o cemitério medieval foi seguro. Alguns combates entre inimigos locais chegaram a ocorrer, como violentas brigas de vizinhos e duelos. Ademais, quando faltava vigilância, o cemitério tendia a se transformar rapidamente em depósito de lixo, outro desafio que a Igreja tentou enfrentar com proibições e pragas – dizia que os que urinavam ou defecavam nos túmulos seriam acometidos por doenças.

Mais difícil, porém, era lutar contra os animais, os porcos soltos que tendiam a fuçar a terra, desenterrando os cadáveres, e os cães que urinavam e cavavam por toda parte. No cemitério dos Inocentes, em Paris, um dos raros monumentos de pedra tinha a imagem de Nossa Senhora e a inscrição de um homem que “em vida se gabava de que os cães não urinariam em seu sepulcro”.

Seria preciso aguardar o século XIX e o uso generalizado das lajes sepulcrais para que os cemitérios se tornassem um espaço silencioso e cercado de altos muros, rigorosamente reservado aos defuntos, uma verdadeira necrópole ou cidade dos mortos, que só se anima no Dia de Finados.




Séverine Fargette-Vissière é historiadora especializada em estudos medievais




OBSERVAÇÃO: Todas as imagens constam da reportagem cujo link segue abaixo e que ali encontravam-se disponíveis em 08/08/2011.




Fonte: http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/os_animados_cemiterios_medievais.html

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Rio de Janeiro: Iphan tomba mausoléu de Santos Dumont

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou provisoriamente o Mausoléu Ícaro, que abriga os restos mortais de Santos Dumont (1873-1932), no Cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul do Rio. "É um dos mais procurados, ao lado do de Cazuza, Carmen Miranda, Clara Nunes e Chacrinha", diz o funcionário da Santa Casa Ideraldo da Silva Abreu, de 52 anos, que há 15 trabalha no cemitério.






Mausoléu Ícaro, que abriga os restos mortais de Santos Dumont (1873-1932), no Cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul do Rio. Imagem disponível em 29/07/2011 no site: http://jornaldecaruaru.wordpress.com/2011/07/16/iphan-tomba-mausoleu-de-santos-dumont/



Por AE Agência Estado. Notícia postada em 16/07/2011 às 8h 40 no ESTADÃO.COM.BR



Se for ratificado pelo Conselho Consultivo do órgão, será o primeiro tombamento desse tipo no Estado do Rio. "Trata-se de uma formalidade. Não conheço nenhum caso de tombamento provisório que não tenha sido seguido pelo conselho", diz o superintendente do Iphan no Rio, Carlos Fernando Andrade.





[Detalhe do] Mausoléu de Santos Dumont, no Cemitério São
João Batista, foi tombado provisoriamente pelo
Iphan (Foto: Fábio Motta/AE).
Imagem disponível em 29/07/2011 no site:
http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2011/07/mausoleu-de-santos-dumont-no-rio-e-tombado-provisoriamente-pelo-iphan.html



Vizinho de jazigos simples como o de Tom Jobim (1927-1994) e Luiz Carlos Prestes (1898-1990), o monumento chama a atenção. Protegido pela copa de uma árvore, é composto por um pedestal em pedra e uma escultura em bronze, no topo, de aproximadamente três metros, da figura mitológica de Ícaro. Está bem conservado.



[Vista geral do] Mausoléu Ícaro [que] está localizado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro / Foto: Fabio Motta/AE [tirada em 15/07/2011 às 17:32hs]. Imagem disponível em 29/07/2011 no site: http://www.band.com.br/noticias/cidades/noticia/?id=100000444409



"Este jazigo que mandei construir para última morada de meus pais, junto dos quais desejo vir descansar, é cópia do monumento levantado em um arrabalde de Paris, em 1913, pelo Aero Club da França", anuncia uma placa assinada por Santos Dumont. Segundo o Iphan, a obra original é de autoria de George Colín e foi produzida para homenagear o inventor brasileiro. A reprodução que se encontra no cemitério foi usada na exposição internacional em Comemoração ao Centenário da Independência, em 1922. Ao término do evento, Santos Dumont foi presenteado com a escultura.





O aviador [Santos Dumont] em foto de 1924 quando estava com 51 anos. Acervo: Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica - INCAER. Imagem disponível em 29/07/2011 no site:http://aprendebrasil.com.br/especiais/14bis/popFoto.asp?idFoto=47&qtde=70&idPerna=



Mausoléu de Santos Dumont [recebendo homenagem] no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Acervo: Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica INCAER. Imagem disponível em 29/07/2011 no site:http://aprendebrasil.com.br/especiais/14bis/popFoto.asp?idFoto=53&qtde=70&idPerna=



Outro aspecto do Mausoléu em foto antiga onde se lê na legenda: Sôbre o túmulo de seus pais, onde também repousa, Santos-Dumont colocou uma reprodução do "Ícaro" de Saint Cloval. Acervo: Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica INCAER. Imagem disponível em 29/07/2011 no site:http://aprendebrasil.com.br/especiais/14bis/popFoto.asp?idFoto=54&qtde=70&idPerna=


Administrado pela Santa Casa de Misericórdia, o São João Batista foi inaugurado em 1852. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

FONTE: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,iphan-tomba-mausoleu-de-santos-dumont,745752,0.htm