A morte nos faz cair em seu alçapão, / É uma mão que nos agarra / E nunca mais nos solta. / A morte para todos faz capa escura, / E faz da terra uma toalha; / Sem distinção ela nos serve, / Põe os segredos a descoberto, / A morte liberta o escravo, / A morte submete rei e papa / E paga a cada um seu salário, / E devolve ao pobre o que ele perde / E toma do rico o que ele abocanha.
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII. São Paulo : Ateliê Editorial / Editora Imaginário, 1996. 50, vv. 361-372)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Campo Mourão (PR): Histórias e mitos cercam cemitério

Cruz de Cedro que virou árvore está até hoje no local. Imagem disponível em 26/02/2011 no site: http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio



Por Walter Pereira. Reportagem publicada no site do JORNAL TRIBUNA DO INTERIOR ( http://www.tribunadointerior.com.br ) nas "Notícias" de Campo Mourão em: 20/02/2011 - 11:07 Atualizado em: 26/02/2011 - 05:31

Quem nunca sentiu medo ou teve a leve sensação de um arrepio correr a espinha ao ouvir as sombrias histórias que acontecem entre os quatro cantos dos cemitérios? O local onde todos nos encontraremos um dia é sempre cercado de muitos mitos e mistérios. Os contos, reais ou não, sempre serão colecionados para serem contados por alguém. E no cemitério de Campo Mourão não poderia ser diferente. Tem coveiro que já viu desde bonecos vudu a filho desenterrar o pai e, acreditem se quiser, até uma cruz que já virou árvore.

A história do cemitério São Judas Tadeu começou oficialmente em março de 58, com o sepultamento de uma mulher. De acordo com os registros da administração, na região havia pelo menos outros quatro “campos santos”, que foram desativados em meados de 2005. Eles eram localizados no São Benedito, Piquirivaí e comunidades do KM 28 e 32. Em Campo Mourão, o primeiro cemitério a ser instalado no município foi no Lar Paraná. Ainda na década de 80, os corpos haviam sido todos removidos ao cemitério atual.

Atualmente, de acordo com informações da administração, há espaço apenas para mais 170 novas sepulturas no cemitério, ou seja, levando em consideração que em Campo Mourão morre uma média de 570 pessoas por ano, o local está com os seus dias contados. “É difícil estabelecer com certeza a quantidade de quantas pessoas ainda podem ser sepultadas. Muitos são enterrados junto de familiares”, explica o administrador João Maria Correa Gonçalves, acrescentando que até agora foram registrados oficialmente em torno de 19.586 sepultamentos.

Vandalismo

Em geral, os cemitérios por mais sombrosos que possam ser, são geralmente considerados espaços tranquilos, locais de paz. “Venho no cemitério toda semana para visitar alguns familiares e gosto da tranquilidade. A hora passa que nem vejo”, confirma a dona de casa, Fátima Herculano, de 38 anos.

No entanto em Campo Mourão, nem mesmo os mortos escapam da brutalidade dos vândalos, que destroem o local. Para se ter uma ideia somente nestes dois primeiros meses do ano, mais de 20 vasos já foram furtados, sem falar das inúmeras peças de bronze, que simplesmente desaparecem. “É difícil evitar. O local é muito grande e existe apenas um vigia para cada turno”, justifica Gonçalves, ressaltando que raramente alguma peça é recuperada.

A cruz que virou árvore

Fatos curiosos marcam a história do único cemitério do município. De acordo com o historiador Jair Elias dos Santos Júnior. Um destes mitos é a “Cruz de Cedro”, fincada no túmulo de Maria Silvério Pereira, esposa de Jozé Luiz Pereira. Trata-se da primeira pessoa que fixou, em definitivo, residência em Campo Mourão.

Por volta de 1905, Maria Silvério estava arando terra, quando então sofreu um acidente fatal. O cavalo que ela montava arrastou-o, agravando o seu problema abdominal. Os seus familiares fizeram a sepultura e colocaram uma cruz, feita de cedro.

Agoniado com a tragédia, Jozé Luiz resolveu ir embora para o Mato Grosso, onde estava seu irmão, Antônio Luiz Pereira. Com o passar dos anos, a cruz apodreceu, permanecendo somente seu tronco. Segundo os mais antigos, da terra do cemitério brotou vida e transformou a cruz de madeira em uma imensa árvore que está até hoje no cemitério.

Com o sepultamento de Maria Silvério, criou-se entre as famílias pioneiras o hábito de enterrar seus familiares no local. A história da cruz de cedro virou o conto “A cruz que virou árvore”, escrito pela historiadora Édina Simionato. (WP)

Jurandir, o coveiro que já viu ‘de tudo’

Pessoas mortas por apenas R$5, filho jogando lata de cerveja na sepultura dos pais, preservativos espalhados pelo cemitério, rituais de magia negra. Enfim, o coveiro Jurandir Ribeiro de Araújo, de 49 anos, que mantém o ofício há pelo menos 14, diz que já viu de tudo no campo santo de Campo Mourão.

“É lamentável você saber que alguém teve a coragem de matar uma pessoa por R$5. Fico pensando, como pode existir alguém assim. Já vi filho revoltado com o pai até no momento do enterro. Ele pegou a enxada da minha mão, abriu um buraco sobre a sepultura e jogou uma lata de cerveja dentro, enquanto falava palavrão contra o próprio pai”, conta o coveiro.

Preservativos no cemitério já cansou de encontrar. Além disso já encontrou rituais de magia negra, como bonecos espetados com agulhas, nomes de pessoas dentro de garrafas e até pequenos punhais enterrados na terra. "Quando encontro enterro tudo", comenta.

Ele relata até um caso inusitado, mas com tanto tempo no ofício e entendendo a dor da família encara com naturalidade. “Foi um dia em que estava sepultando o pai de uma moça e ela, inconformada, ficava me vendo como uma pessoa cruel. Dizia que o pai dela ia ficar sem ar embaixo da terra e que um dia alguém ia fazer daquele jeito comigo também”, conta ele, que diz não temer a passagem dessa vida. Evangélico, só se preocupa com uma coisa: alcançar a salvação eterna. “Só gostaria de ter a certeza da salvação. O resto não importa.”

Há tanto tempo enterrando gente, Araújo diz que já dividiu tristezas e derramou lágrimas junto a famílias. “Rapaz, tem hora que a gente não aguenta e chora junto. O meu trabalho me faz pensar na vida”, completa. (WP)
Jurandir trabalha há cerca de 14 anos no cemitério. Imagem disponível em 26/02/2011 no site: http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio


O retrato do descaso

Sepulturas em ruínas, carreadores na terra pura e sujeira, mas muita sujeira mesmo para todos os lados. Este é o estarrecedor retrato do São Judas Tadeu. Um dos locais mais visitados da cidade não oferece sequer o mínimo de estrutura aos visitantes. Atualmente, de acordo informações levantadas junto a administração, pelo menos 80% do cemitério não dispõe de asfalto. Os carreadores que estão com o que resta de malha asfáltica também estão bastante deteriorados.

A situação é ainda mais grave onde não tem asfalto. A erosão já começa a formar valetas entre os túmulos. De acordo com os próprios funcionários, quando chove o local fica praticamente intransitável.

A reportagem entrou em contato com o secretário de planejamento para saber se existe algum projeto de melhorias para cemitério, mas não o encontrou. (WP)

Há 28 anos idosa limpa e conserva túmulos

Um ofício nada comum e que, de certa forma, exige muita coragem. Afinal de contas não é qualquer pessoa que se dispõe a cuidar de túmulos. É arrepiador, ainda mais por se tratar de cemitério. Estamos falando de uma personagem real. Ela se chama Nair da Rocha da Silva, de 66 anos, que há pelo menos 28 anos limpa e conserva túmulos no cemitério. A idosa presta os serviços particulares e, por mês, consegue tirar algo em torno de pouco mais de um salário.

Dona Nair, como é mais conhecida, é uma senhora franzina, tímida, mas corajosa. Hoje ela é responsável pela conservação de pelo menos 60 túmulos no cemitério São Judas Tadeu. Há quase três décadas trabalhando ao lado dos mortos, ela afirma que nunca presenciou nenhum fenômeno estranho, muito menos se sentiu mal ou amedrontada por estar próxima aos defuntos. “Me sinto em paz”, sintetiza.

Dona Nair, como é mais conhecida, limpa pelo menos 60 túmulos por mês. Imagem disponível em 26/02/2011 no site: http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio


No entanto a zeladora faz uma ressalva, diz que a única coisa que a incomoda são as macumbas espalhadas pelos estreitos carreadores junto às tumbas. “Já encontrei velinhas coloridas de ‘saravá’ e até galinha preta morta”, revela.

Todos os dias, pelo menos desde que começou a trabalhar no cemitério, a rotina de Nair é a mesma: pegar no trabalho às 8 horas da manhã com parada às 6 horas da tarde. Ela diz que os pais, entre outros parentes estão sepultados no local e aproveita também para visitá-los.


Nair faz questão de ressaltar as inúmeras amizades já consolidadas no local. Além dela, pelo menos outras 10 mulheres aderiram ao ofício. A senhora lembra que hoje, boa parte da limpeza é feita por ela, mas que no futuro, quando também estiver no mundo dos mortos espera que outra pessoa continue a tarefa. “Não pode esquecer de limpar o meu túmulo também”, brinca. “Às vezes a gente brinca, mas é verdade”, completa com leve sorriso estampado no rosto tímido. (WP)



Fonte:http://www.tribunadointerior.com.br/campo-mourao/noticias/3975/?noticia=historias-e-mitos-cercam-cemiterio

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Rio Grande do Sul: Pesquisadora resgata memória de milhares de desbravadores

Fotos Divulgação. Imagem disponível em 17/02/2011 no site: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739

Publicado no site: BrasilAlemanha (www.brasilalemanha.com.br) , no Blog da Júlia Kupfers Blog, Notícias BrasilAlemanha, acessado em 17/02/2011.

Lançado em novembro de 2010, o livro Cemitérios em Candelária, RS e adjacências / Friedhöfe in Candelária, RS und Umgebung, da pesquisadora Marli Marlene Hintz, traz o registro de 5.098 pessoas sepultadas em 40 cemitérios no interior dos municípios de Candelária, Passa Sete e Vale do Sol, na região central do Rio Grande do Sul.

Marli Hintz autografando seu livro. Imagem disponível em 17/02/2011 no site: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739


É o primeiro volume da série que visa resgatar os obituários ocorridos naquela região, a fim de preservar a memória dos desbravadores, visto que suas sepulturas vêm sendo substituídas por novos sepultamentos, sem que haja o cuidado de mencionar quem anteriormente ocupara aquele espaço. A obra traz ainda o endereço de cada cemitério, bem como um esquema de localização de cada sepultura.
As crônicas acerca da origem de alguns cemitérios, como, no caso, o Cemitério Familiar Schuck e o Cemitério Familiar Knies, iniciados após uma tragédia, foram traduzidas também para a língua alemã, assim como os demais textos e endereços.

Quem tiver interesse em adquirir um exemplar do livro ou alguma fotografia de lápides de pessoas nascidas até 1900, poderá contatar a autora através do telefone (51) 8181 5138 ou (51) 9159 3195 ou pelo e-mail marli_hintz@hotmail.com.

A autora inserida na cultura gaúcha com o inseparável chimarrão. Imagem disponível em 17/02/2011 no site: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739

Sobrenomes encontrados:

Abling, Achtenberg, Aggens, Albrecht, Almeida, Alves, Andrade, Anger, Aretz, Aubana (Haubert), Aude, Auler, Aute, Ávila, Azevedo;

Bagel, Baier, Baierle, Bailke, Bapen, Bappen, Bartel, Bartz, Basso, Bastos, Batista, Bauer, Beber, Becker, Behling, Beier, Beise, Beisse, Belhke, Beling, Bellingh, Bender, Berlr (Berle), Bernardi, Bernardy, Bernhard, Bertoline, Bicca, Bilge, Bittencourt, Blank, Bloesz, Boeck, Böck, Bock, Boer, Böer, Boesel, Boettger, Bohrer, Bolduan, Bolgrin, Boness, Bopp, Borchard, Borges, Born, Borstmann, Bottlender, Braatz, Braga, Brainer, Brainert, Brandão, Brandt, Brant, Brats, Bratz, Brem, Bressler, Bringmann, Brockhausen, Brixner, Brum, Bublitz, Buchmaier, Buchmayer, Buchmeier, Bündchen, Burmeister, Busato, Busch, Buss, Butzke, Butzker, Butzlaff;


Imagem disponível em 17/02/2011 no site: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739


Campos, Candido, Cardoso, Carlotto, Carmo, Carvalho, Casdro, Caspers, Castan, Castro, Ceza, Cezar, Chaves, Christmann, Chultz, Clauhs, Coimbra, Colto, Conceição, Conrad, Correa, Correia, Coulart, Couto, Cristow (Ristow);

Daleaste, Dashow, Dassov, Dassow, Daumke, Dausel, Davares, D’Ávila, Dettmann, Dias, Diehl, Doebber, Doege, Doss, Drachler, Durre vald (Dürrewald), Dürrewald, Dutra, Duval;

Ebert, Eckel, Einloft;

Gerunewald, Gevehr, Gewehr, Ghiell, Giehl, Gienow, Ginow, Goechs, Goecks, Göcks, Goelzer, Göhl, Goldbeck, Gomes, Gonçalves, Gomçalves, Gonsalves, Goulart, Goularte, Goularti, Grade, Graeff, Grehers, Grehs, Greiner, Groeler, Gröler, Grohe, Gruneval, Grunewald, Guedes, Guindel, Gularte, Guna, Gündel, Güntel;

Haetinger, Hackbard, Hackbarth, Hasse, Haubert, Haupt, Haut, Hauth, Hautt, Heilmann, Heylmann, Heimerdinger, Heinrich, Heinze, Heize (Heinze), Heller, Hencker, Henckes, Henke, Henker, Henkes, Henquer, Henrique, Herber, Herberts, Herbertz, Hermenegildo, Hesel, Hessel, Hienze (Heinze), Hinz, Hintz, Hirsch, Hoppe, Hoqqe (Hoppe), Hösel, Hübner, Hüschen;

Imagem disponível em 17/02/2011 no site: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739

Ignácio, Iser;

Jaehn, Jagnow, Jahke, Jahn, Jahnck, Jahnke, Jancke, Janke, Jappe, Jensen, John, Jost, Jung, Junk (Jung);

Kadatz, Kamenberg, Kanitz, Kannenberg, Kappke, Karnopp, Karsten, Kasburg, Kaulfersch, Kegler, Kellermann, Kenemann, Kettermann, Klaus, Kleid, Klein, Kleinert, Klock, Knak, Knies, Knirsch, Knoll, Kochemborger, Kochenborger, Koenemann, Könemann, Koenig, König, Koepp, Köpp, Kohls, Konrad, Konradt, Koppenhagen, Kops, Körner, Kotz, Krätzmann, Krause, Kreher, Kretzmann, Krug, Krüger, Kühl, Kuhn, Kummer, Kuntz, Kunz, Küntzer;

Lamdskron (Landskron), Lauer, Leib, Leid, Lemes, Lenz, Leopold, Lermen, Lessing, Limberger, Lindemann, Linha, Linhar, Linhares, Lipert, Loebens, Loeve, Loewe, Löwe, Lopes, Love, Ludtk, Luedtke, Lüdtke, Lüdtze, Luther, Lütke, Luettjohann, Lüttjohann, Lutz;

Machado, Machata, Maciel, Maehler, Mahlke, Maidana, Malich, Mallüg, Manske, Maraschin, Marascuim, Marion, Maroes, Marques, Martin, Martins, Massadt, Mata, Mattana, Mechow, Melchior, Melchiors, Melz, Menezes, Michel, Milbradt, Minhs (Minks, Minks, Mohr, Mora, Moraes, Morais, Moraz, Morsch, Mota, Moura, Mouro, Müchel, Mueller, Müller, Muler, Mundstoc, Mündstock, Mundstock, Münks;

Imagem disponível em 17/02/2011 no site: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739

Nass, Nauder, Nauderer, Nehls, Nenemann, Nery, Neu, Neubauer, Neuenfeldt, Noinfelt, Nunes, Oesterreich, Oldenburg, Oliveira, Oltenbuar, Otto, Overbeck, Overbecke;

Padilha, Pagel, Paranha, Parnow, Passos, Paulos, Paulus, Pereira, Perussato, Petri, Petry, Pherner, Pidt, Pimenta, Pires, Pitrovsky, Plautz, Pless, Polli, Polly, Pomerening, Porto, Post, Pothin, Prade, Prado, Prates, Preste, Prestes, Priebe, Puntel;

Quevedo, Quimba, Quoos, Quos;

Rachel, Radinz, Radke, Radtke, Radüns, Raduntz, Radünz, Ramm, Ramoz, Rathke, Ratzinger, Rauber, Rech, Rediske, Regert, Rego, Rehbein, Rehebein, Rehers, Reis, Reohr, Retzlaff, Richardt, Rickmann, Rieck, Ristov, Ristow, Ritzel, Rocha, Rodrigues, Roehrs, Röhrs, Roerhs, Rohde, Roehers, Rohers, Röhers, Röhes, Roloff, Roos, Rosa, Rosário, Rösler, Rossa, Rothmund, Rotrique, Ruckert, Ruff, Runge, Ruppenthal, Rusch, Rusdoitschen, Rutsads, Rutsats, Rutsatts, Rutsatz, Ruttsatz;

Sá, Salim, Sandos, Santos, Schäme, Schefferdecker, Schell, Scherer, Schiefelbein, Schieferdecke, Schieferdecker, Schieffelbein, Schiefferdecker, Schiferdecke, Schiferdecker, Schiferdeker, Schifferdecker, Schilling, Schlittler, Schlemma, Schlemmer, Schloesser, Schlosser, Schmachtenberg, Schmid, Schmidt, Schmiedt, Schmitt, Schnantes, Schneider, Schönwalder, Schroeder, Schröder Schuck, Schuler, Schuldz, Schultz, Schulz, Schumacher, Schüncke, Schünke, Schurer, Schürer, Schvantes, Schwandes, Schwantes, Schwantez, Schwantz, Seckler, Sehn, Seibert, Severo, Seza, Shäme, Shulthz, Shultz, Silva, Silveira, Simon, Slim, Soares, Souza, Sperling, Staffen, Stahlecker, Stail (Steil), Steffen, Steil, Stein, Steindorff, Steinhaus, Stoeckel, Strach, Strassburger, Strub, Stumm, Souza, Suckow, Sudhaus, Svarosky;

Imagem disponível em 17/02/2011 no site: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739

Tech, Teche, Teichmann, Teixeira, Tesch, Tesche, Tetzlaff, Theichmann, Thom, Thume, Trindade, Turcatto, Türk;

Ullmann, Ummus;

Vargas, Velsch, Vick, Vidal, Voelz, Völz, Voese, Volff;

Wagner, Waide (Weide, Wallter, Wanzen, Wegener, Wegner, Weide, Weinig, Weinöhl, Weirich, Welker, Welsch , Wendler, Wermuth, Wernz, Wiedenhöft, Willmann, Wilmann, Winck, Winkelmann, Winter, Wohlenberg, Wolff, Wolffenbüttel, Wollmann, Wollmer, Wunes, Wunstel;

Zahn, Ziehmann, Zielch (Zilch), Ziemann, Zieske, Zilch, Zillmann, Zillmer, Zingler, Züge, Zühl, Zül, Zuse, Zusser

Fonte: Marli Hintz, autora
E-mail:
marli_hintz@hotmail.com


FONTE: http://www.brasilalemanha.com.br/portal/index.php?p=noticias&getID=5739

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Santo mau cheiro

Sepultados sob solo santo: Contrariando a opinião de cientistas do século XIX, um padre queria que os católicos continuassem sendo sepultados nas igrejas
"Diversos tipos de cortejos fúnebres", aquarela de Debret (1823). Imagem disponível em 11/02/2011 no site: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59701999000200003&script=sci_arttext#im3


Por Felipe Augusto de Bernardi Silveira. Fragmento de Artigo publicado nas páginas 44 a 47, da Revista de História da Biblioteca Nacional [versão online: http://www.revistadehistoria.com.br], Nº 64, Ano 6, de [01 de] Janeiro de 2011.

Um artigo no Diário Fluminense de 27 de dezembro de 1825, de um autor que se identificava apenas como “Novo Correspondente”, daria o que falar. Por suas argumentações, o texto parecia ter sido escrito por alguém letrado ou até por um médico, especialmente quando tecia elogios ao governo imperial, por conta de uma sábia decisão tomada naquele ano. O fato é que uma nova lei baixada na ocasião proibia que o interior das igrejas brasileiras continuasse a ser usado como cemitério, cumprindo uma antiga determinação feita por meio de uma Carta Régia de 1801. O artigo seguia com uma saraivada de acusações ao clero e criticava o fato de a Igreja Católica brasileira enterrar seus mortos nas campas, pequenos quadrados de madeira numerados no chão do templo. Era algo que parecia atrasado, pouco civilizado e, principalmente, nocivo à saúde.

As coisas estavam mudando na primeira metade do século XIX. A chegada da família real em 1808 certamente desencadeou uma série de alterações na rotina e nos costumes dos súditos. Civilizar-se estava na ordem do dia, e um dos caminhos para se atingir esse objetivo era por meio do desenvolvimento da medicina. Após a Independência, em 1822, um corpo médico-higienista começou a propor soluções não só para os problemas sanitários do Rio de Janeiro, mas de todo o Império, uma vez que a insalubridade era tida como a causa principal das enfermidades.

Cemitério Novo, em Petrópolis. foto de Pedro Hees (c.1870).[Original Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Coleção Thereza Christina Maria] Na primeira metade do século XIX, os enterros no interior dos templos foram proibidos em várias cidades brasileiras. Imagem disponível em 11/02/2011 no site: http://facadaleitemoca.wordpress.com/2009/06/05/rio-de-janeiro-seculo-xix/

Segundo as teorias médicas da época, o mal era um só: a presença de gases miasmáticos e nocivos no ar que se respirava, produzidos por matéria animal ou vegetal em decomposição. Invisíveis, podiam ser encontrados nas cidades, em locais onde o estrume ficava acumulado, como no meio das ruas, e onde havia água parada ou animais mortos. Mas esses miasmas eram percebidos principalmente nos cemitérios. A tese de doutorado de Manoel Maurício Rebouças, defendida na Faculdade de Paris em 1831, reforçava os argumentos dos higienistas brasileiros. Intitulada “Dissertação sobre as inumações em geral e seus desastrosos resultados”, ela reunia documentos tidos como fidedignos, pois envolviam pessoas de caráter inquestionável, como padres e médicos. O problema estava nas alterações sofridas pelo ar devido a diferentes propriedades que se agregavam a ele, alterando suas características originais. Até mesmo o hálito, a transpiração e os excrementos de um animal eram considerados agentes contaminadores. (...)

Leia a matéria completa na edição de Janeiro, nas bancas.

Felipe Augusto de Bernardi Silveira é professor da UFMG e do Colégio Dona Clara. É autor da Dissertação "Entre políticas públicas e tradição: O processo de criação do Campo Santo na cidade de Diamantina (1846-1915)" (UFMG, 2005).

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3493

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Votuporanga (SP): Museu realiza estudos sobre cemitérios históricos

Apesar de ser uma reportagem de 2006 achei interessante pela iniciativa, infelizmente não sei se ainda foi alcançada conforme pude constatar no site oficial do município.
Cemitério Hitórico da Vila Carvalho. Foto: André Villar, 2007. Imagem disponível em 26/01/2011 no site: http://www.panoramio.com/photo/5613703

Artigo publicado pela Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Votuporanga em 13/12/2006 às 08:10:00 na Seção Geral do Portal de Notícias: http://www.regiaonoroeste.com/portal/home.php

A equipe do Museu Municipal “Edward Coruripe Costa”, de Votuporanga, está realizando estudos sobre os vários cemitérios desativados na região. O levantamento teve início no ano passado e busca contribuir para a preservação da identidade cultural e da história de desenvolvimento local.

Estudos já foram realizados na Estrada de Rodagem Porto do Tabuado, conhecida como Estrada Boiadeira (1889 – 1950). A via foi uma das principais rotas para o crescimento da região do Noroeste Paulista até o antigo estado do Mato Grosso (atualmente Mato Grosso do Sul).

De acordo com o Encarregado do Setor de Museus e Patrimônios Históricos e Coordenador do Mapeamento, Evandro Júnior, a região de Votuporanga conta com oito cemitérios desativados, localizados em São João das Duas Pontes, Santo Antonio do Viradouro, Vila Aparecida, Valentim Gentil, Vila Carvalho, Córrego da Prata, Bairro do Carrilho e do Córrego do Bonito. Muitos desses pontos de sepultamento estão localizados em propriedades privadas. A equipe explica que em todos os casos, as características arquitetônicas são as mesmas: cercado com estacas de aroeira e um cruzeiro de madeira ao centro. Também constatamos uma divisão social que enterrou de um lado os indigentes ou proletariados em covas com pouca ou nenhuma identificação, do outro, famílias nobres com sepulturas de luxo em locais privilegiados geograficamente.

Evandro Jr. destaca ainda a riqueza histórica do cemitério da Vila Carvalho, de Votuporanga. “No local, está enterrado um dos primeiros compradores de terras da região na década de 20. O Coronel Felício José de Carvalho adquiriu parte da extensa fazenda Santo Antônio do Viradouro. Também estão sepultados poceiros, carroceiros e parentes de moradores da referida vila, que conforme data informada no cruzeiro, é de 1925”, explicou.

Aspecto de Vila Carvalho. "Esta é a vila mais antiga do município de Votuporanga, que existe antes mesmo da própria sede do município". Foto: Votupa [sem data]. Imagem disponível em 26/01/2011 no site: http://www.panoramio.com/photo/39107613

Cemitério Vila Carvalho

Buscando resgatar toda a história que envolve o cemitério da Vila Carvalho, o Setor de Museus e Patrimônios Históricos juntamente com a Secretaria da Educação e Cultura vem desenvolvendo um minucioso trabalho de preservação do espaço. Está em andamento, o projeto de nome “Revitalização do Histórico Cemitério Boiadeiro da Vila Carvalho” seguindo padrões do DPRN (Departamento de Recursos Naturais), Polícia Ambiental e profissionais da área.

Pelo trabalho, estão previstas: estaqueamento da velha cerca de aroeira por uma madeira semelhante, reconstrução do cruzeiro de aroeira, bosqueamento e conservação das 32 sepulturas ainda visíveis, limpeza em volta das sepulturas em um raio de 50 cm de diâmetro, reconstituição dos túmulos que ainda estão visíveis, construção de uma entrada para facilitar o acesso dos visitantes valorizando o local histórico, catalogação das espécies da fauna e flora que se formaram no cemitério, conscientização dos moradores da Vila Carvalho em zelar o seu importante Patrimônio Histórico, incentivar roteiro histórico, turístico e natural e entender como era o processo funerário no inicio do povoamento de nossa região.

O cemitério está localizado na rodovia Péricles Beline, à 7 Km, de Votuporanga, na estrada boiadeira Vila Carvalho, as margens da Estrada Boiadeira do Taboado, próximo ao Córrego Cachoeira.


Segundo o site oficial da Prefeitura de Votuporanga, no link da Secretaria de Educação Cultura e Turismo, setor Museu Municipal "Edward Coruripe Costa" existe (2011) um projeto desenvolvido pelo museu denominado "Estratégias de Conservação ao Cemitério Histórico de Vila Carvalho - Estão sendo levantados todos os trâmites legais para que aconteça a revitalização do cemitério da Vila Carvalho. Foi elaborada uma proposta de revitalização para o local preservando sua originalidade e as espécies nativas que se desenvolveram no local."
Confira no link:

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Blumenau (SC) - Cemitérios da Vila Itoupava são inventariados


Vista panorâmica do Cemitério de Vila Itoupava, Blumenau (SC), 07/11/2010. Imagem disponível em: http://interditus.wordpress.com/


Por MORGANA MICHELS. Artigo publicado na edição de 13/11/2010 N° 12096 do JORNAL SANTA CATARINA de Blumenau (SC) na Seção: HISTÓRIAEspecial/Santa


BLUMENAU - Preservar o patrimônio histórico é fundamental para que a comunidade estabeleça uma relação com sua história. Com base neste princípio, o Fundo Municipal de Cultura e a Fundação Cultural promovem um inventariamento dos cemitérios da Vila Itoupava. O projeto Lugares de Antepassados, Lugares de História: inventário de cemitérios de imigrantes em Vila Itoupava, prevê o levantamento das características dos túmulos, por meio de imagens e descrição, para que sejam feitas ações em prol da preservação deste patrimônio funerário. Inicialmente, o trabalho permitirá o conhecimento das características dos bens culturais e estado de conservação. O próximo passo será o tombamento e as restaurações.

O inventário começou este mês com o levantamento do Cemitério do Centro e a previsão de encerramento é para março de 2011, quando mais cinco cemitérios serão registrados. Segundo a diretora do Departamento Histórico Museológico de Blumenau, Sueli Petry, o conhecimento dos bens imateriais servirá como relevante registro da cultura e poderá fomentar o uso destes espaços como rotas culturais. Nestes cemitérios estão famílias que participaram da história da cidade e também estão retratadas as diversas classes sociais que podem ser vistas nas edificações tumulares:

– Os cemitérios não são mais locais de sentimentos de perda, mas espaços nobres que merecem visitação.

A historiadora e coordenadora do Grupo de Estudos Cemiteriais de SC e do inventário dos Cemitérios da Vila Itoupava, Elisiana Trilha Castro, acrescenta que este levantamento pretende acompanhar as mudanças dos usos e costumes funerários e levantar elementos da religiosidade e da formação da cidade. Para ela, os cemitérios são arquivos da memória familiar e local. Após o inventário da Vila Itoupava, a intenção do grupo liderado por Elisiana, mestre em Arquitetura e Urbanismo (UFSC) e doutoranda em História (UFSC), é estender o trabalho para outros bairros.


Membros da equipe do Grupo Interditus realizando levantamento do primeiro cemitério do Inventário de Vila Itoupava (Blumenau), 07/11/2010. Imagem disponível em: http://elisianacastro.wordpress.com/


PRIMEIRAS DESCOBERTAS


No levantamento do Cemitério do Centro, o primeiro a passar pelo inventário na Vila Itoupava, já foram encontradas características relacionadas com os cemitérios de comunidades teuto-brasileiras (de influência germânica). Eles apresentam elementos da postura funerária encontradas em áreas de imigração alemã, como poucas imagens de santos e alegorias, o uso de epitáfios em alemão, a inscrição do sobrenome de solteira em sepultamentos femininos e poucos mausoléus.
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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Goiás: Por falta de recursos - cemitérios irregulares são comuns em núcleos rurais

Em núcleos rurais de território goiano, é comum encontrar ossadas enterradas desde o século passado. Escassez de recursos e de médicos que emitissem atestados de óbito estão entre as causas que determinaram o costume.

Por Mara Puljiz. Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense - 26/09/2010 - Seção Cidades - Cemitérios Irregulares. Publicação: 26/09/2010 08:43 Atualização: 26/09/2010 09:36. http://www.correiobraziliense.com.br/



Manhã ensolarada de 22 de agosto de 1967. Em um pedaço de terra da Fazenda Savana, em Tabatinga, zona rural de Planaltina, era enterrado o último morto na região. Tratava-se do famoso José Jonas Monteiro, então dono de boa parte das propriedades. O fazendeiro morreu aos 63 anos, vítima do mal de Chagas, adquirido pela picada de um barbeiro, inseto transmissor da doença. José Jonas foi velado pelos familiares e levado no dia seguinte para a cova, aberta por um parente que tinha corrido na frente do cortejo. Ele descansa em um quadrado de terra batida, à beira de uma estrada de chão, ao lado de pelo menos outros 20 lavradores e fazendeiros que habitavam o local muito antes da inauguração de Brasília, em 1960.

Cemitérios como esse são facilmente encontrados em inúmeras propriedades espalhadas pelos núcleos rurais próximos. Moradores mais antigos revelaram à reportagem do Correio a existência de pelo menos seis deles em fazendas distantes umas das outras. A área, antigamente, pertencia ao município de Formosa (GO), e depois passou a fazer parte de Planaltina do DF. Entre os moradores mais antigos da região, está o lavrador aposentado Joaquim Augusto Vieira, 89 anos, conhecido como Nego Totó. Segundo ele, a pessoa que morria era levada “na cacunda” para o cemitério ou ainda transportada em carroças puxadas por cavalos ou carros de boi.

O dia do sepultamento de José Jonas foi marcado por muita tristeza. Bastante apegado ao pai, Antônio Wilson Monteiro, 63 anos, preferiu ter a imagem dele vivo em sua memória. “Tinha muita gente e eu não fui”, contou. Por sorte, um médico atestou a causa de sua morte, mas naquele tempo, a família ainda não recebia atestado de óbito do ente querido. Não havia naquela época alguém que oficializasse a morte de uma pessoa. Os médicos eram escassos e, para ter acesso a eles, a população precisava percorrer vários quilômetros em trilhas de terra e mato. A viagem podia demorar dias. Quando alguém acordava sem respiração, sem os batimentos e com os olhos esbugalhados, todos tinham a certeza de que não estava mais vivo. “A gente sabia que a pessoa tinha morrido porque depois de uma hora a feição dela já mudava”, relatou Nego Totó.

Primeiros registros
A certidão de óbito só passou a ser fornecida pelo Instituto Médico Legal (IML), no Parque da Cidade, em 1957, quando foram feitos em Brasília os primeiros registros de atividades médico-legais. Nessa época, um laudo de necropsia estava reduzido a meras informações de idade, causa da morte, data e local do óbito. A primeira vítima foi Benedito Xavier da Silva, 45 anos, que morreu em 20 de abril de 1957 no Acampamento do Guará de colapso cardíaco. Benedito foi sepultado em Formosa, mas os procedimentos legais eram feitos em Planaltina ou Luziânia, onde a maioria dos cadáveres eram sepultados. Até 1957, os mortos encontrados além do Córrego Vicente Pires (Núcleo Bandeirante) eram levados para Luziânia (GO) e os do lado do Plano Piloto seguiam para Planaltina, uma vez que ainda não havia polícia judiciária no que seria o DF. “A pessoa morria e não tinha documentação que comprovasse o desaparecimento dela. Morria e ficava por isso mesmo. Era menos um e o enterro ia da valsa (conforme os costumes) de cada um”, contou Antônio Wilson.

Moradores mais distantes que quisessem enterrar algum familiar no cemitério precisavam atravessar o Córrego Jardim. Eles ainda tinham o cuidado de enrolar o cadáver em um pano e fixar tábuas de madeira no fundo, laterais e tampa da cova, para que o corpo não fosse devorado por tatus-canastra.

Tatu-canastra
É o gigante dos tatus e vive em pequenos bandos. É o maior e mais raro dos exemplares vivos dessa espécie, e só ataca quando é inevitável. O tatu-canastra chega a 1,5m do focinho à cauda e pesa 60kg. Esses animais costumam ser comuns em cemitérios por se alimentarem de larvas e animais em decomposição, mas estão ameaçados de extinção.

Personagem da notícia
Nego Totó

Prestes a completar nove décadas de vida, o homem de cabelos brancos, barba bem aparada e olhar firme ainda demonstra lucidez ao falar de seus antepassados. Filho da terra em que habita, Joaquim, ou melhor, Nego Totó, nasceu em uma propriedade de Tabatinga, onde foi criado e vive até hoje. Ele lembra que enterrou pelo menos quatro parentes, entre tios e primos, na região. José Jonas era um primo e foi um deles. Nego Totó foi quem se encarregou de abrir a cova e protegê-la com tábuas para que os tatus não comessem os restos mortais depositados no túmulo. O veterano da zona rural conta que Tabatinga na verdade se chamava Fazenda Vaz e tinha não mais que uma centena de habitantes, que foram ocupando o espaço pouco a pouco. Mulheres grávidas daquela época tinham medo de dar à luz porque, como não havia médicos, muitas morriam durante o parto. “Quando uma grávida morria, a gente corria para enterrar e não contava para ninguém, porque senão as outras mulheres ficavam assustadas e não queriam mais engravidar”, contou Joaquim. Quem era picado por cobra venenosa rezava para sobreviver. O único tratamento para todas as doenças era à base de chá de raízes (MP).


Da roça para o culto aos mortos

Sempre no Dia de Finados, em 2 de novembro, os parentes largam o serviço na roça e saem de casa para acender velas e fazer oração em cima do que restou de cada túmulo. No ano em que o pai morreu, Antônio Wilson resolveu fazer a lápide de cimento para que ficasse marcado o local exato onde ele foi sepultado. A medida deu certo, pois as cruzes de madeira fincadas no cemitério se perderam com o tempo e alguns restos de madeira podre estão encobertos pela terra e pelo mato. Os corpos estão em um terreno que foi desapropriado e passou a ser particular.

Passados 43 anos do último sepultamento, o dono da propriedade e os funcionários decidiram não retirar as cruzes do local e não usá-lo para plantio. “A gente respeita a família. Se eles quiserem cercar o cemitério e cuidar direitinho, podem ficar à vontade”, garantiu o caseiro José Divino de Jesus, 40 anos, morador da região há cerca de 20. “Chega o Dia de Finados e vou lá colocar velas para os mortos”, disse a mulher dele, Vera Pinto Melo de Jesus, 36.

Além do pai, a avó de Antônio Wilson, Maria Augusta Monteiro, também foi enterrada ali, em 1953. Até o fim do ano, ele quer obter autorização para remover a ossada e levar para o Cemitério de Planaltina, no Setor Sul, onde a mãe dele foi enterrada. “Quero colocar todo mundo da família junto”, disse ele.


Grupo de pesquisadores estuda áreas de sepultamento

A origem dos cemitérios rurais ainda é pouco conhecida. Embora seja um assunto que causa medo em muita gente, um grupo de 25 pesquisadores brasileiros se dedica a estudar cemitérios espalhados por todo o mundo. São historiadores, geógrafos, profissionais do turismo, arqueólogos, antropólogos e fotógrafos que integram a Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (Abec), criada em 2004 com o objetivo de agrupar pessoas que tenham interesse em pesquisar o cemitério como lugar de memória, de produção artística e de patrimônio cultural. Eles promovem encontros bianuais para trocar experiências de abordagens diferentes sobre o tema. Segundo a presidenta da associação, Maria Elízia Borges, no Brasil, pouco se sabe até hoje sobre os cemitérios rurais. “Sabemos que são muitos espalhados pelas fazendas no interior, mas ainda faltam pesquisadores”, admitiu.

A maior dificuldade dos pesquisadores é encontrar as fazendas onde os mortos eram enterrados, uma vez que nem todos foram cadastrados pelas prefeituras e acabaram sendo esquecidos. Também não há registros de lápides antigas e de como as tumbas eram feitas. Com isso, boa parte da história foi enterrada junto. Muitas cruzes que identificam a presença das ossadas humanas se perderam em meio ao mato ou afundaram na terra. Passadas centenas de anos, muitas famílias naturalmente abandonaram do local de sepultamento.

De acordo com Maria Elízia, que também é professora de história da arte na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG), são comuns os cemitérios nas região de Goiás, em algumas regiões do interior onde antigamente escravos e patrões eram enterrados na mesma terra. “Antigamente era tradição e as pessoas tinham o prazer de serem enterradas na própria fazenda”, informou. O cemitério público surgiu no século 19, mas o rural continuou existindo da mesma forma diante dos costumes e das condições de transporte para os locais apropriados, que eram muito difíceis. Até hoje, não existe levantamento das propriedades onde há gente morta. “Infelizmente ainda somos muito poucos pesquisadores, mas o cemitério é um lugar de memória da cidade e é importante ser registrado. Muito mais que isso, significa reconstruir a memória do cidadão”, avalia Maria Elízia.

Cruz no morro
A produtora rural Elzir da Cunha Leão Falqueto, 41 anos, pouco sabe da história da avó Selvina Xavier de Almeida. Ela morreu no mesmo ano que Elzir ainda estava no ventre de sua mãe, em 1968. Foi enrolada em uma rede de pano e enterrada em uma área que antigamente pertencia ao Núcleo Rural Cooperbrás, mas passou anos depois a fazer parte de Tabatinga. No cemitério, ela foi informada que apenas a ossada de duas pessoas está debaixo do terreno, localizado ao lado de uma torre de telefonia. Na última terça-feira, Elzir levou a reportagem ao local onde Selvina está sepultada. Para chegar, é preciso caminhar em meio ao capim seco. Dois técnicos cuidavam da manutenção da torre de telefonia e ficaram assustados em saber que a poucos metros havia gente enterrada. “Nem sabia. Vou ler a história no jornal”, disse um deles.

Passados 42 anos, a cruz e as pedras colocadas ao redor do túmulo ainda permanecem no lugar. Mesmo sem ter conhecido a avó, em todo Finados a neta acende uma vela em cima do túmulo. Antes de ir embora, Elzir e seu filho, Arthur Alcino Leão Falqueto, 15 anos, rezaram juntos um Pai-Nosso em memória de dona Selvina.

Fonte:http://www.mp.go.gov.br/portalweb/conteudo.jsp?page=1&pageLink=1&conteudo=noticia/075064a32ec292818d4b14e5987c1a68.html